segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

SONHO VIDA





desperto e completo o dia na noite. 
vivo meus sonhos com os olhos abertos, 
o sono mutila o dia e anula a noite. 
o sono foge as horas em minhas mãos  

- irrealizáveis partículas dos meus átomos, 
  não multiplicadas semanas dos meus corpos, 
  improdutivos meses das minhas vidas, 
  inúteis anos e séculos da cotidiana eternidade - 

o sono estraga todos os sonhos 
e eu sei que, dormindo, não repousamos. 
a vida é energia desperta claro dia  
iluminando a noite mais profunda. 
o sono é morte. 



(Do livreto AMÉRICA INDIGNADA
 Y POEMAS DA ALEGRIA DA VIDA,
 de Juareiz Correya
 - Panamerica Produções / Nordestal Editora,
  Recife, PE, 1991)


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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA 
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, 
de Juareiz Correya  
(Panamerica Nordestal Editora, Recife, PE, 2010) 



quarta-feira, 20 de novembro de 2013

COMUNICADO PARA DESCONHECIMENTO DA CIDADE





a cidade ignora a tua presença. 
ela não sabe  
que por seus membros apertados  
passeia a tua carnal beleza, 
que percorres, com a tua graça, 
o seu inalterado cotidiano, 
conheces no teu sorriso  
as estações dos seus bairros, 
e que expressas, sensual e doce, 
olhares e bocas de suas ruas e becos, 
e as sensações dos seus luares e rios, 
iluminando pelas praças e pontes
com a tua magia de fêmea 
a invenção de sóis e ventos  
dos seus dias e noites renascidos. 
e porque te encontro a cidade inteira te olha : 
atenta e espiã a cidade te descobre  
e os homens te buscam com fome  
e as mulheres te invejam com raiva. 

AH CIDADE VG 
IGNORA NOSSA EXISTENCIA  


(Do folheto AMÉRICA INDIGNADA
Y POEMAS DA ALEGRIA DA VIDA
- Panamerica Produções / Nordestal Editora,
  Recife, PE, 1991)


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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA 
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, de Juareiz Correya   
- Panamerica Nordestal Editora,Recife, PE, 2010


domingo, 27 de outubro de 2013

POR TODOS OS SENTIDOS





tua fala tem sossego 
um segredo que não cala 
por fora da tua voz  
que traz carícia 
e notícia  
bem de dentro do teu peito  
do jeito de se agradar  
do jeito mais que perfeito 
do lado esquerdo e direito  
por onde vai teu coração  
se alegrando e palpitando 
querendo e adivinhando 
o toque da minha mão  

um tato novo é preciso  
com cuidado e com juízo  
de quem chega em terra estranha  
um tato claro que chegue  
te acelere e te apegue  
quando mais cresce e te arranha  
que descobre teus apelos  
no sangue da tua cor  
na tua hora sem medo  
no gosto do teu calor 

teu corpo brilha maduro  
universo claro-escuro 
ninho de tons e mistério 
tem um som na tua pele  
guardado que se expele  
virado em percussão 
eu bem quero e te venero  
te faço crença e canção    

e o teu cheiro mais vivo  
veneno doce e lascivo 
me entorpece e me excita  
eu sou quem dou e acredita  
a minha sorte na tua  
a nossa nudez mais nua  
te faço mulher renascida  
amando pra dar a vida  


(Do folheto AMÉRICA INDIGNADA      
 y POEMAS DA ALEGRIA DA VIDA
- Nordestal Editora, Recife, PE, 1991)


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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA 
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, de Juareiz Correya 
- Panamerica Nordestal Editora, Recife, PE, 2010  

sábado, 20 de julho de 2013

INTIMIDADE




eu gosto
do teu cheiro de dentro
de dizer que te mato  
de prazer de cansaço 
de perder os meus braços 
navegando em teu mar  

eu gosto 
dessa carne que arde 
mais cedo e mais tarde 
pelos cantos da casa 
de fazer minha rede  
no vai-vem dessas pernas
(no aconchego das coxas)   
de cair de cabeça  
nos segredos da gruta  

eu gosto 
desse gosto mais doce  
que o teu corpo oferece 
 de tanto gozar 
do teu longo arrepio 
dessas voltas do cio  
desse amor sem parar 



(Do folheto AMÉRICA INDIGNADA
Y POEMAS DA ALEGRIA DA VIDA,
- Panamerica Produções / Nordestal Editora,
Recife, PE, 1991)


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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA 
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, de Juareiz Correya  
- Panamerica Nordestal Editora, Recife, PE, 2010 

sexta-feira, 21 de junho de 2013

PLENITUDE





Eu te pertenço como não me pertenço 
sempre sei o que sou em tuas mãos  
e gosto de ser assim o teu querer 
sono e sonho toda hora é teu prazer  
tudo sabe meu corpo e se renova  
e se amplia mais, a carne orientando, 
porque animas a vida como quem me cria, 
a tua posse me completa, perfeita harmonia  
de quem me inaugura em paz e alegria  



(Do livreto AMÉRICA INDIGNADA
Y POEMAS DA ALEGRIA DA VIDA
- Panamerica Produções / Nordestal Editora,
Recife, PE, 1991)


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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA 
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, de Juareiz Correya 
- Panamerica Nordestal Editora, Recife, PE, 2010

sábado, 11 de maio de 2013

COTIDIANO






O tempo não cabe no dia
e o dia - essa humilde e limitada
criação do tempo -
não cabe nas minhas mãos, parceiras 
de iluminadas horas em tuas mãos.
manhãs tardes e noites inconfundíveis 
destinadas forças do imutável dia
cota diária de tudo e de todos
o tempo não existe,
nem o território concreto e absoluto
em que instaura e institui  o dia
- sua unida e legítima criação.
em nós vive a nossa concreta 
e absoluta existência, em nós unicamente 
se manifesta e se inaugura 
a manhã a tarde e a noite 
- jamais o dia, o invisível dia 
filho do inexistente tempo.  




(Do livreto AMÉRICA INDIGNADA 
Y POEMAS DA ALEGRIA DA VIDA
- Panamerica Produções / Nordestal Editora,
Recife, PE, 1991)



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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, de Juareiz Correya 
- Panamerica Nordestal Editora, Recife, PE, 2010

segunda-feira, 1 de abril de 2013

ABRIL




"Abril é o mais cruel dos meses"
                          (T.S. ELIOT)



Nenhum mês é cruel.
Os meses são messes,
prova e força de nomes humanos.
Dias completos, casas do zodíaco,
horas de cada dia, ano por ano,
o tempo é o homem. 
Em tudo nascemos.
Em todos vivemos.
Tu és terra de abril, maio,
a mesma terra que eu sou
a gosto, setembro. 
Também capricórnio em nós identificado. 
Água sobre água, fogo por fogo,
ar em ar libra gêmeos de aquário.
Homem e mulher, signos,
mulher e homem, símbolos,
únicos elementos. 
Tu és tu em mim,
eu sou eu em ti. 
Nunca existimos sem ser o outro. 
E porque nasceste, nasci. 
E porque tu vives, eu vivo. 



(Do livreto AMÉRICA INDIGNADA
Y POEMAS DA ALEGRIA DA VIDA,
de Juareiz Correya 
- Panamérica Produções / Nordestal Editora,
Recife, PE, 1991)



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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20,
de Juareiz Correya 
- Panamérica Nordestal Editora, Recife, PE, 2010

domingo, 17 de março de 2013

O SOM E A TERNURA





Em tua voz escuto melhor o meu nome.
A suavidade com que dizes 
o que tu queres
é doce e agradável como a tua boca.
Tuas palavras são beijos.
Teu pensamento desejo.
E mesmo que nada fales,
sinto que te conheço a nua intimidade,
com a certeza da luz 
que a tua voz revelará.



(Do livreto AMÉRICA INDIGNADA
Y POEMAS DA ALEGRIA DA VIDA,
de Juareiz Correya
- Panamerica / Nordestal Editora, Recife, 1991)




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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20,
de Juareiz Correya
- Panamerica Nordestal Editora, Recife, PE, 2010

domingo, 3 de fevereiro de 2013

CANTO A NÓS MESMOS




"Eu disse que a alma não é mais do que o corpo,
 E disse que o corpo não é mais do que a alma."
                                       (WALT WHITMAN)




quando amamos
descobrimos tudo 
a terra a água o ar o fogo 
a natureza as estações os tempos 
e a possível sobrevivência 
de deus e do diabo. 
descobrimos
 os nossos corpos puros
a carne o sangue a emoção 
- sopro permanente da existência. 
somos viva 
e intensa descoberta 
em nós mesmos 
além de nós mesmos 
e pela projeção 
de nossas forças imaginárias. 
tudo vive a beleza existe 
e é em nós que a eternidade nasce. 
somos o princípio único
o universo em pessoa. 
o corpo goza a emoção
e se completa com o outro corpo 
e a alma anima a carne 
unificada com a outra alma.   


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(Do livreto AMÉRICA INDIGNADA 
Y POEMAS DA ALEGRIA DA VIDA,
de Juareiz Correya 
- Panamerica Produções / Nordestal Editora,
Recife, PE, 1991)


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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA 
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, de Juareiz Correya 
- Panamerica Nordestal Editora, Recife, PE, 2010
 

domingo, 6 de janeiro de 2013

CÃNTICO CLARO (sobre tema de José Régio)






Se vim ao mundo
foi só para te amar 
e te fazer amada.
O mais que faço, não vale nada. 





(Do livreto AMÉRICA INDIGNADA
Y POEMAS DA ALEGRIA DA VIDA,
de Juareiz Correya
- Panamerica Produções /
 Nordestal Editora, Recife, PE, 1991)



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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20,
de Juareiz Correya 
- Panamerica Nordestal Editora, Recife, PE, 2010