quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

RECITAL (1 : Um)



nem interessa mais figurar minha fantasia de mim.
eu sou sem retoques, sem adornos
e bilheterias para o espetáculo
estas poucas coisas que me desacertam
e harmonizam meu sangue com bombas
no coração do mundo.
me vejo pior a cada dia separado dos outros
por isto que lhes dedico.
desejo apenas compor com todos uma alegria
que sequestre todos os temores e uma entrega
que não nos devolva a este tempo jamais.
gritar nas ruas as novas promessas da gente,
dizer um manifesto que revolucione e anule a ordem
que vocês estabeleceram para calar suas vidas.
para esse carnaval eu não escondo nada, não subtraio
minhas energias nem evito qualquer janeiro
para esse carnaval eu vou invadir as ruas
ser a pele dos batuques o pano da troça
o sexo da folia
desembestando multidões
no pulo dos passos
bebedo de cantar


________________________________

(Do folheto UM DOIDO E A MALDIÇÃO DA LUCIDEZ,
Palmares, PE, 1975)

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

"Eu acho que nada mais resta..."

Eu acho que nada mais resta
a minha carne é para os cães deste século
para os pósteros eu testemunho a loucura
com as legiões de jovens famélicas
pelas próprias vidas devoradas
nos seus corações sem sombras
para os pósteros eu só asseguro
o direito aos meus ossos podres
carniça odiosa que restarei



___________________________________

Do folheto UM DOIDO E A MALDIÇÃO
DA LUCIDEZ, edição do autor,
Palmares, PE, 1975.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

UMA FAZENDA NO EDEN ?


para Marconi Notaro




segurar esses bodes
numa barra
que não seja fácil nem nada
ouvindo berros sossegos
gatos pintados de tarde
entre juremas & séculos
ou vendo nos pés coqueiros
com sexos de manhãs


segurar esses bodes
guiados de qualquer bar
em nossas taças de mão
em nossos copos leitosos
bebido néctar de cores
ou sangue de água & lodo
mergulham em nossas gargantas
longas peles de montanhas


segurar todos os bodes
no tanque das nossas bocas
em nossa cria de sonhos
amamentar todo mundo


todos os bodes nos nascem
na ponta de qualquer dedo
& nestes sorrisos soltos
cultivamos rebanhos
pelas mesas citadinas
onde sabemos de tetas
que não se apagam madrugadas


sem cerca & vegetação
nossos bodes amadurecem
vomitados com o chão.


________________________________

(do livreto AMERICANTO AMAR AMÉRICA
& OUTROS POEMAS, Nordestal Editora,
Recife, 1975)

sábado, 12 de dezembro de 2009

CANÇÃO PARA MENINAS

desejo teus passos calcando chamados
nas rodas da rua, nos vãos desta casa
eu ouço teus passos
me iludo & embaraço tuas sombras a minha
eu quero teus risos nas vagas calçadas
teus risos por perto tangendo mentiras
de vocábulos inventados para os teus agrados
me embriago em luzes dos teus olhos distantes
em fogo aproximarei as mãos dos teus traços
corpos ninféteis povoando meu sangue de correrias
exponho a cara para o incesto
maravilhado em tuas carnes tenras
semi-fêmeas
quase-mulheres que deliram meu sexo
em horas sem métrica, quase-mulheres
estandartes de gozo
eu abrirei larga boca para os teus suores
para os teus cheiros eu oferendo sede eterna
de lábios que se aguçarão derramados
na ânsia de beber teus centímetros em pedaços
& alvoroçarem tuas inocências
tuas ternuras guardadas, teus sexos verdes
eu alcançarei teus espantos
com alegria descobrirei tuas descobertas
em mim amanhecendo



________________________________________
(do livreto AMERICANTO AMAR AMÉRICA
& OUTROS POEMAS, Nordestal Editora,
Recife, 1975)

domingo, 6 de dezembro de 2009

POEMA PARA LÉA (*)

quando a gente ama
não reclama
da cama
do berço dos braços
do suor em bagaços
deitado
em cima da gente
quando a gente ama
a gente se sente
demente
& se faz descrente
do mundo inteiro
quando a gente ama
dançam na gente
garras de chama
& a boca gemente
de gozar se derrama
na gente-semente
na gente somente
quando a gente ama



(do livreto AMERICANTO AMAR AMÉRICA
& OUTROS POEMAS, Nordestal Editora,
Recife, 1975)



________________________________

(*) Canção do compositor Paulo Diniz,
interpretada por ele, com arranjos de
João Donato, no elepê "Estradas" (Emi-
Odeon, Rio, 1977), e por Wanderléa,
com arranjos de Egberto Gismonti,
no elepê "Vamos que eu já vou (Emi-
Odeon, Rio, 1977). Regravada por
Paulo Diniz no CD "Reviravolta"
(Produção Independente, Recife, 2003).

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

CÂNTICO PARA JOELINA

Toma, toma tudo o que eu sou
& a minha alegria crescida do meu corpo
doido carnemoto.
Dentro de ti eu cresço & me espedaço
expassos me guiam, convergência de mim.
Dentro de ti, aberto como este cântico
eu me dou & nada exijo, eu me dou
- este dar-se apenas dádiva,
eu me dou.
Me cavalga me cavalga me cavalga
me cavalga a noite inteira, amor.
Dentro de ti mergulhado, rígido & móvel
eu te habito como um século novo,
lúcida essência
& fecundo tua alegria & teu êxtase.


_________________________________________________
(do livreto AMERICANTO AMAR AMÉRICA
& OUTROS POEMAS,
, Nordestal Editora,
Recife, 1975)