domingo, 24 de janeiro de 2010

OFÍCIO DOS OSSOS (para Juareiz Correya)




O que tens, poeta, é bem pouco
ou muito ou nada ou o que seja serve
para tua mitologia, sem sentidos
tens os pés e a hora do poema cheia,
uma enchente pelas ruas da cidade que significas.
Tens o prato; e a prata ?
tens a prata, uma pata medonha
que te esmurra de passagem
no meio do povo,
de novo,
todos querem ver
o tabefe te cobrindo o rosto, a rubra vergonha
que não tens e te roubas, tentando
palhacear, tentando palha cear
teu prato direto estômago chato
esta vida não te dá enjoos ?


Poeta, o que tens
não representará nunca teu minuto de sorte
contado teu tempo
escalas escadas
e te calas ? tu falas
safado, teu feijão é muito
(suficiente para qualquer um) desnecessário
para teu apetite, tua ração
faz falta aos porcos.


O que tens poeta não mereces
e se recebes um cruzeiro por igual valor
envergonhas o câmbio.
O que tens poeta é o que te cabe
e não serviria mesmo para ninguém mais.
O que tens, excedência dos outros,
existe apenas para teu desassossego,
para a miséria que permutas em teu nome
pelos que te esquecem,
em sacrifício dos que te evitam,
pela alegria dos que te entristecem,
pelos cacos da ruína que edificas
com essa nudez que surpreende os cães da platéia,
com essa nudez em que estrepas tesa
a confusão de ser




(do folheto UM DOIDO E A MALDIÇÃO DA LUCIDEZ,
de Juareiz Correya, edição do autor, Palmares, 1975)

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

CANÇÃO DE QUEM SE FAZ AMANTE




De que me serve este amor
como uma chaga aberto ?
Na cidade de criaturas vazias
perdi a noção de mim
enegreci o cheiro do meu calor
enterrei o meu sexo
num buraco de excrementos sem raízes.
De que serve tudo isto
& a beleza que eu carrego
& as minhas palavras sinceras
& a luxúria dos meus gestos expostos ?
Caminho apenas
para evitar esses desencontros que se forjam
a minha espera em cada esquina
& se metem casa a dentro pregados
na minha roupa & pulando rutilantes na máquina.


Vou não sei por que abraçar a madrugada
pois as desesperanças me sacodem
por dentro como uma bolsa em que coração
& músculos sem peso estiram-se
& vibram num orgasmo masturbado.
Amar é apenas uma expressão vaga
na boca de quem me ouve.
Minhas correrias pelas ruas caladas
são buscas inúteis & eu me ofereço
eu me ofereço amigo & quente
tenho a carne toda para repartir
em cada instante & por mil atos
multiplicarei os meus pedaços.
Eu quero servir minha condição máscula
como quem espalha
sua febre & sua peste em torrentes
sobre os céus da cidade
& derrubar as árvores de solidão cimentadas
nos rostos que encontro.




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(do folheto UM DOIDO E A MALDIÇÃO DA LUCIDEZ,
edição do autor, Palmares, PE, 1975)