sábado, 23 de outubro de 2010

MARIA JOANA





joana, eu te quero para dormir
menina de olhos cálidos
quero bodear te querendo
te comendo, maria
joana das transações, derrubações
dos mil e um baratos,
mulher lampejo
fumando meus dedos
me amassa
tou mais ou menos legal
partilharei com os meus irmãos
toda & qualquer alegria
e a paz que nos embala
eu sei que te proibem para os meus lábios
que te proibem fluir no meu peito
encher minha cabeça te é proibido
maria (cálida) joana (doce)
tu me adormeces todos os músculos
me abres no meio de mim com um sopro
& que importa ao mundo
se me embebedo ? se fico pirado ?
se me ouriço do tamanho de uma sensação ?
se bodeio com clássicos olhos vermelhos
& o corpo meu
curtido no teu cheiro & no teu gosto
me expõe de dentro de mim
& sai comigo ao meu encontro ?




(do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA,
de Juareiz Correya
- Nordestal Editora, Recife, 1982)



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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20,
de Juareiz Correya
- Panamérica Nordestal Editora, Recife, 2010

domingo, 17 de outubro de 2010

DIA DE SOL




os nervos compridos que estalam-me
do corpo atiro
pela porta na rua.
os nervos rasgados
eu grito com um rombo enorme
na garganta minha cabeça cresce & quebra
os móveis da sala
quebra as portas & os objetos
na calçada eu apavoro
as pessoas com um grito rouco,
arremesso as pernas
sobre construções e fantasmas de concreto,
sou uma miragem,
vocês me comovem putas elegantes
troco um olho pelo sol
agora as veias se abrem
& o meu sangue corre solto
pela calçada eu me inundo & vomito
todos os orgãos para comê-los com um bocado de terra
com o meu tórax aberto embaixo de máquinas
negras móveis vocês fazem uma festa




(do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA,
de Juareiz Correya
- Nordestal Editora, Recife, 1982)



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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20
- de Juareiz Correya -
Panamérica Nordestal Editora, Recife, 2010.

domingo, 10 de outubro de 2010

OFÉLIA DO CAPIBARIBE (*)




ela era a noite só cheia de apelos
homens querendo seu corpo
delírios de bestas
espasmos do medo
e ela fingindo fugir fugindo
bem me quer
mal me quer
quem me quer
todos querem comer
e comer lhe queriam completo animal
embora seus sonhos não fossem contados
nem voz nascia do seu coração crescido
nem preço nem nome ela teve ou teria
só era a noite seu corpo que havia
e ela noturna como o sangue do rio
em branco sol morto de manhã arrastada
por negras correntes de esgotos detritos
em podre enchente sob as águas boiando
seu corpo era lixo cabelos e flores
bicho mais morto mar a dentro inchando



*Escrito sobre pintura de Tereza Costa Rego


(do livreto PINTURA & POESIA,
organização de Sylvia Pontual e Jaci Bezerra,
Edições Pirata/Galeria 154,
Recife/Olinda, PE, 1984)



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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, de Juareiz Correya
- Panamérica Nordestal Editora, Recife, PE, 2010.