segunda-feira, 31 de maio de 2010

"Eu fui visto voando em círculos..."

eu fui visto voando em círculos
retos no jardim da infância
com anjos cor de rosa ridentes
& velozes
& as pessoas nos acompanhavam angustiadas
pelos céus da cidade
todas as crianças me seguiam & atropelavam
aviões & mísseis & era uma festa
& uma gritaria melodiosa pelos céus da cidade
tantos castelos & tantos países de guloseimas
casas & montanhas enormes doces comestíveis
construídos assim PLUFT





(do folheto RECITY RECIFE - UM,
Casa da Cultura / Governo de Pernambuco,
Recife, 1976)

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Transcrito do livro
AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20,
Juareiz Correya (Panamérica Nordestal,
Recife, 2010)

quinta-feira, 20 de maio de 2010

QUATRO ESTUDOS NU POEMA (4)

ando nos mesmos corredores dos homens comuns
& me cerco dos hábitos cotidianos, colocado
nos supermercados, cinemas, bares, nos becos me oriento
para ser capaz como os outros,com os mesmos vícios
que alegram as famílias & o Governo
tomando ônibus, táxis, bebendo neurose na capital
& consumindo tédio nas cidades do interior
me esforço para conduzir assim este corpo magro de vidro
pelas ruas onde todos os olhares me rebuscam
eu escrevo como quem pratica crimes perfeitos
sem paz & alegria para esta descoberta inesperada



(do folheto UM DOIDO E A MALDIÇÃO DA LUCIDEZ,
Juareiz Correya, Palmares,PE, 1975)


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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20
- Juareiz Correya
(Panamérica Nordestal Editora, Recife, 2010)

domingo, 9 de maio de 2010

QUATRO ESTUDOS NU POEMA (3)

assim o espanto me conduz
eu sei onde estou & não sei aonde vou
no cérebro guardado posso consultar a memória
mas o que me interessa assalta minhas energias
sem tempo marcado,
aqui eu me erijo & conduzo o movimento
que não havia surgido, a palavra que não tinha nascido
a emoção que jamais despertara,
a música que nunca havia musicado estes símbolos.
aqui eu fecundo uma nova espécie, a raça
que não nasceu hoje & nascerá sempre :
eu inauguro, sem festas, o poema

sábado, 1 de maio de 2010

QUATRO ESTUDOS NU POEMA (2)

o que eu digo gargaloa escarrado na boca
eu sou o agitador & a platéia deste comício
me espero onde não há saída, venero a podridão
sujo tudo que brilha, eu sei que a lama
alimenta este mundo,
eu abro o olho onde sangro como uma homenagem
para os teus passos, eu cego um olho
& vejo luzes que não queria me incendiando o rosto
com este canto que eu não entendo
& a dádiva que me resume neste gesto