segunda-feira, 15 de novembro de 2010

SEM AMANHECER



amanhece.
mas eu sinto que não amanheço.


sombras amadurecem em meu rosto
e um cansaço eterno mora neste corpo
que eu pensei guardar
revivido para hoje.


amanhece agora
- a cidade está pronta para o dia que nasce
limpa e clara se instala a manhã
no coração dos homens que despertam,
sem sombras no rosto
e sem cansaço,
renascidos também.


amanhece.
só eu não vejo a luz e os caminhos.



(do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA,
de Juareiz Correya -
Nordestal Editora, Recife, 1982)


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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20,
de Juareiz Correya
- Panamérica Nordestal Editora, Recife, 2010

sábado, 6 de novembro de 2010

FLOR QUE NÃO SE CHEIRA





sou flor que não se cheira, tenho é veneno
eu mato e tiro o couro, depois condeno.
sou bicho doutro mundo, vivo em tocaia
espero todo dia que a casa caia.


mas tem hora que sinto e me conheço
direto e certo, compasso e prumo
sem saber porque me orientando
feito universo de todo rumo


e saio de mim e me entrego tanto
vendaval no coração da cidade
cada vez mais nu e louco e santo
só minha paixão por tudo arde


e sinto e sou e saio e salto
cada vez mais alto e largo e fundo
navego meu rio, capricho meu barro
voando meu fogo purifico o mundo



(do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA,
de Juareiz Correya
- Nordestal Editora, Recife, PE, 1982)



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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20,
de Juareiz Correya
- Panamérica Nordestal Editrora,Recife, PE, 2010.


sábado, 23 de outubro de 2010

MARIA JOANA





joana, eu te quero para dormir
menina de olhos cálidos
quero bodear te querendo
te comendo, maria
joana das transações, derrubações
dos mil e um baratos,
mulher lampejo
fumando meus dedos
me amassa
tou mais ou menos legal
partilharei com os meus irmãos
toda & qualquer alegria
e a paz que nos embala
eu sei que te proibem para os meus lábios
que te proibem fluir no meu peito
encher minha cabeça te é proibido
maria (cálida) joana (doce)
tu me adormeces todos os músculos
me abres no meio de mim com um sopro
& que importa ao mundo
se me embebedo ? se fico pirado ?
se me ouriço do tamanho de uma sensação ?
se bodeio com clássicos olhos vermelhos
& o corpo meu
curtido no teu cheiro & no teu gosto
me expõe de dentro de mim
& sai comigo ao meu encontro ?




(do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA,
de Juareiz Correya
- Nordestal Editora, Recife, 1982)



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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20,
de Juareiz Correya
- Panamérica Nordestal Editora, Recife, 2010

domingo, 17 de outubro de 2010

DIA DE SOL




os nervos compridos que estalam-me
do corpo atiro
pela porta na rua.
os nervos rasgados
eu grito com um rombo enorme
na garganta minha cabeça cresce & quebra
os móveis da sala
quebra as portas & os objetos
na calçada eu apavoro
as pessoas com um grito rouco,
arremesso as pernas
sobre construções e fantasmas de concreto,
sou uma miragem,
vocês me comovem putas elegantes
troco um olho pelo sol
agora as veias se abrem
& o meu sangue corre solto
pela calçada eu me inundo & vomito
todos os orgãos para comê-los com um bocado de terra
com o meu tórax aberto embaixo de máquinas
negras móveis vocês fazem uma festa




(do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA,
de Juareiz Correya
- Nordestal Editora, Recife, 1982)



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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20
- de Juareiz Correya -
Panamérica Nordestal Editora, Recife, 2010.

domingo, 10 de outubro de 2010

OFÉLIA DO CAPIBARIBE (*)




ela era a noite só cheia de apelos
homens querendo seu corpo
delírios de bestas
espasmos do medo
e ela fingindo fugir fugindo
bem me quer
mal me quer
quem me quer
todos querem comer
e comer lhe queriam completo animal
embora seus sonhos não fossem contados
nem voz nascia do seu coração crescido
nem preço nem nome ela teve ou teria
só era a noite seu corpo que havia
e ela noturna como o sangue do rio
em branco sol morto de manhã arrastada
por negras correntes de esgotos detritos
em podre enchente sob as águas boiando
seu corpo era lixo cabelos e flores
bicho mais morto mar a dentro inchando



*Escrito sobre pintura de Tereza Costa Rego


(do livreto PINTURA & POESIA,
organização de Sylvia Pontual e Jaci Bezerra,
Edições Pirata/Galeria 154,
Recife/Olinda, PE, 1984)



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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, de Juareiz Correya
- Panamérica Nordestal Editora, Recife, PE, 2010.

sábado, 25 de setembro de 2010

CANÇÃO DE MIM EM TUA BOCA




desfolho a glande ao vento
para o teu sustento
prepucio nervos pulsantes, teu hálito
sopra em meu sexo aragens cardíacas, batem
neste músculo mágica oferta
teus olhos acendem a escuridão do quarto
com os mesmos faróis apagadores de sóis marítimos
chão liso piso palha colchas mata praia
água-rio aguamar reviramos as horas
revezamos faunas floras e a história de se dar.
tua boca se debruça em mim feita céu movente
cobre meu corpo sem palavras estelares consteladas
para animar meus movimentos terrenos :
apenas cios cios tua voz teleguia carícias
me banha sons roucos poucos
esparsados, é intensa a tua fome.
alimento, o vigor que me nasce vem de ti
e eu dedico emoções ao teu sorriso tenso
de dentes e línguas expostos luminoso de sede
eu te ergo em obelisco minha carne germinada
se elaborando do âmago de fundos poços.
tua boca presa em mim lambe espadas do púbis
derrama as serpentes da tua língua hábil
no monumento que te ebria e eleva as tuas forças
para a garganta sangrando a tua baba
que chove quente aduba meus escrotos.
eu sou teu, me esforço nesta dádiva ouvindo tua ânsia
a voz murmurada mastigando meu pênis,teus membros
prensam meu corpo com gestos espasmódicos.
tua boca sensual efervesce meu sangue
e amplia meu sexo para dentro de ti
eu me jogo em teu rosto, vagina
de doces lábios macios dentes incandescente língua
tua boca me absorve desentranha meu gozo
concentrado nestas ereções crescentes
em que eu brilho minha essência
me ejaculando de raízes revoltas




(do livreto O AMOR É UMA CANÇÃO PROIBIDA,
de Juareiz Correya - Edições Pirata, Recife, 1979)

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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, de Juareiz Correya
- Panamérica Nordestal Editora, Recife, 2010


sábado, 11 de setembro de 2010

OUTRO POEMA DE CIRCUNSTÂNCIA




meus pulmões transbordam-me pela boca
de granito automóveis & metálicos minotauros
vagos como balões de espuma
na Praça da República
gritos & estupros entram pelos meus ouvidos
& a orquestra é uma tarde fixa
quente, quente, mais quente e atordoante
que o teu orgasmo.
parar, parar assim como um idiota
parado entre tantos animais feridos que correm
para me pisar com os seus cascos de nailon,
parar estupidamente & expor-me as vísceras
para que os pássaros condenados cantem berros de vitórias
nos seus carnavais criminosos ?
parar assim como uma pedra uma bala uma vítima ?
parar assim como quem perde as pernas durante o vôo
& estender a cara sobre a cidade
& estender langores & delírios para as tuas correrias,
para os teus sentimentos automáticos & cronometrados,
para as tuas sensações censuradas & computadas,
& ser um pouco matéria lubrificante óleo
para os corações dos robôs nas peças dos homens ?
eu quero beijar o sexo verde
da menina que passa agora de vestido vermelho
pegada na mão de um homem que é talvez seu pai,
beijar-lhe o sexo impúbere todo todo avidamente beber
os suores dela como quem bebe licores
de cálice desfolhado.
As jovens burguesas desfilam
sua fétida sua odiosa beleza
vestida pelas agências de publicidade
& colorem a própria vaidade com a merda estrangeira
& riem alegremente, os corpos crivados
com as facas do seu engano trágico eu grito
& incendeio a avenida caminhando para dentro do meu peito
com os seus pederastas fanáticos
& as suas putas heróicas
& as suas meretrizes oficiais
bêbedos de guerras multisexuais
& os seus gritos de sanguebrancogeladonasveias
minha loucura copula em reuniões sagradas
publicamente
com as mulheres de bronze da Praça da República
& do Largo do Arouche
eu fodo com as mulheres de bronze
de todas as praças & de todos os jardins públicos,
& os meus olhos fálicos
inundam os sonhos de todas as meninas soltas,
eu sou um monstro & contemplo os teus rostos
& corto as tuas cabeças
para enfeitar estes lugares estripados
pelo sol



(do livreto O AMOR É UMA CANÇÃO PROIBIDA,
Juareiz Correya - Edições Pirata, Recife, 1979)


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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, Juareiz Correya
- Panamérica Nordestal Editora, Recife, 2010

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

ATO

no meio da cama me ergo & Sônia se ergue me acompanha com as mãos os dedos crispados as pernas tesas Sônia se deita se espicha se solta nos lençóis mal lavados da cama do hotel fico imóvel sentado sobre as minhas pernas & o pé esquerdo de Sônia procura-me o pênis semiduro eu rio & Sonia enfia o pé esquerdo na minha barriga deitando-se deitada Sônia cresce cresce tem um púbis gigante & as coxas volumosas como dois pilares eu me jogo para as pernas de Sônia duas montanhas lisas & alcanço o rosto de Sônia que se abre Sônia cabe dentro de mim cabe em todas as minhas partes & agora eu cresço a pele inchada músculos veias os membros inchados



(do livreto O AMOR É UMA CANÇÃO PROIBIDA,
Juareiz Correya - Edições Pirata, Recife, 1979)




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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, Juareiz Correya
- Panamérica Nordestal Editora, Recife, 2010)

sábado, 21 de agosto de 2010

CANTIGA DE QUERER



quero gozar na tua boca
o beijo mais doce
iluminado na noite
do teu corpo ganhar
a alegria a festa inteira fantasia
de mais querer
de mais gozar amor viver


quero gozar na tua boca
de amar amor gozar
além da noite nascer o dia
no teu corpo garanhar minha alegria
ser a festa da tua fantasia
tua febre e a sede de se dar
amor inteiro, amor de se gozar



(do livreto O AMOR É UMA CANÇÃO PROIBIDA,
de Juareiz Correya - Edições Pirata, Recife, PE, 1979)

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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, de Juareiz Correya
- Panamérica Nordestal Editora, Recife, 2010

sábado, 31 de julho de 2010

MELHOR É AMAR




melhor que morrer é viver
cair no bar
virar a esquina
andar a pé
de mão em mão
de lotação
correr de trem
não sei aonde
ir de avião
chupar o caldo
beber a cana
ser sem vergonha
e ser bacana
se depender
da ocasião
ser um menino
que não se engana
que sonha muito
e cai na cama
vira Papa-Figo
de Bicho-Papão


melhor que morrer é viver
ter seu mistério
ter sua linha
crescer na conta
não na conduta
sofrer na rinha
da sua luta
sorrir na hora
dizer o nome
que quem é homem
não se consola
entrar de sola
ficar de frente
olho por olho
dente por dente
chegar mais cedo
ir logo embora


melhor que morrer é viver
ser singular
não diferente
não ser pessoa
ser mesmo é gente
correr jamais
não é preciso
não tem parada
tem é caminho
não há demência
há só juízo
pra ver o bem
se vê o mal
não vale ao mundo
saber profundo
vale no fundo
o essencial


MELHOR QUE MORRER É VIVER
MELHOR PRA VIVER É AMAR
QUEM VIVE PODE MORRER
QUEM AMA NÃO MORRERÁ



(do livreto O AMOR É UMA CANÇÃO PROIBIDA
- Juareiz Correya, Edições Pirata, Recife, 1979)



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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20
- Juareiz Correya, Panamérica Nordestal, Recife, 2010.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

PASSAGEM NA PONTE




estou aqui, no meio da ponte
no raio do dia (ou no açoite da noite)
no vão desta vida, no passo das águas
amanhecendo de tarde sem hora de amanhecer desperto
com a mesma sede afogada na garganta
despejando as enchentes da fala nos rios.
estou aqui, em cima da ponte
não sou boi nem voarei além do Equador,
não vou correr da polícia,
não tenho argumentos nem malícia,
não vou pular frevo ou maracatu,
não sou punguista nem sou camelô.
dentro da ponte é onde estou
e não me interessa se você para ou passa
se você pensa qualquer coisa ou se acha graça
e desconversa direto antes de chegar na esquina.
não me interessa se você é macho ou fêmea.
não me interessa a roupa que você veste,
se você não tem dinheiro no bolso ou no banco
ou se investe porrilhões e tantos na Bolsa de Valores.
interessa é que eu estou aqui
na ponte,
sem pregão, sem comício,
sem liquidação, sem manifesto, sem saber direito
como lhes falar de encontros e entregas e dores
e vocês têm uma pressa infernal que atrapalha
com os instantes contados num sistema canalha,
dando graças pelo seguro de todos os dias,
estúpida promessa,
para que os porcos não lhes cortem as cabeças.
vocês têm famílias, posses e silêncios horríveis
para cultivar e multiplicar a vida inteira
(e nada como palavras, que tão aéreas soam,
como as que eu te ofereço, irmão,
dispara jato mais veloz no sangue do coração).
vocês não ouvem nada, eu sei,
e nada têm para dizer também.
igualmente motorizados dentro da cidade das horas
vocês não dispõem de tempo,
vocês pensam que aceleram sua própria Sorte,
vocês sabem apenas que nós somos inúteis, jamais necessários.
no passeio da ponte sou eu quem falo
e aqui me acendo, me dou e me escangalho
aqui sou poeta, oferta, passagem.




(do folheto RECITY RECIFE - UM,
Edição Casa da Cultura / Governo de Pernambuco,
Recife, 1976)


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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, Juareiz Correya
- Panamérica Nordestal Editora, Recife, 2010)


domingo, 13 de junho de 2010

DO DESAMOR BERRANTE

deitado em teu corpo sou eu quem estremeço
de tremores crispados à flor dos meus dentes
sem um soluço gemido misturado
à chama da fala que se apaga sem espancar teu rosto.
sou eu quem mergulho em mim e me abarco com as mãos vazias
desorientado e só neste deserto de quatro paredes
em que tua voz distante não te anuncia
em qualquer rotação.
a cama não é teu ninho, a cama é teu holocausto
e te estiras inerme quando eu brilho meu sexo
ao teu alcance e silencias quando me afundo em teus braços
como quem me vê conduzindo as trevas da noite irretornável.
a tortura não te escalda a carne
e sou eu quem sinto na pele nos ossos os rombos
de sua frenética paixão e o clangor de suas cadeias
fere e dói fundo e amor-talha minha ternura
desprezada nos lençóis com o avesso
desta oferta máscula que te faço




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do folheto RECITY RECIFE - UM
(Casa da Cultura / Governo de Pernambuco,
Recife, PE, 1976).

sábado, 5 de junho de 2010

PONTE SOBRE ÁGUAS TURVAS






se teu sorriso
não movesse o rio
contra as correntes do leito
onde escorre
eu poderia sim eu poderia
cair nesta noite
sem esperança de te encontrar


minha canção é tão pouca
minha canção chove
e me faz um homem débil
tua lembrança joga no meu rosto
teus braços cheios
de plantas e odores
teus peitos macios de tremores
e de nuvens encharcadas


cigarros sapatos cuspo pedaços
de árvores e de pássaros
e tuas palavras algumas, que eu misturo
com seixos assovios e a melodia
que você gostava de ouvir na minha boca
agora também o céu é feio e não tem graça
tua lembrança me entristece
e me enterra
nestes espelhos




(do folheto RECITY RECIFE - UM,
Casa da Cultura /Governo de Pernambuco,
Recife, 1976)


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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20 - Juareiz Correya
(Panamérica Nordestal, Recife, 2010)

segunda-feira, 31 de maio de 2010

"Eu fui visto voando em círculos..."

eu fui visto voando em círculos
retos no jardim da infância
com anjos cor de rosa ridentes
& velozes
& as pessoas nos acompanhavam angustiadas
pelos céus da cidade
todas as crianças me seguiam & atropelavam
aviões & mísseis & era uma festa
& uma gritaria melodiosa pelos céus da cidade
tantos castelos & tantos países de guloseimas
casas & montanhas enormes doces comestíveis
construídos assim PLUFT





(do folheto RECITY RECIFE - UM,
Casa da Cultura / Governo de Pernambuco,
Recife, 1976)

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Transcrito do livro
AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20,
Juareiz Correya (Panamérica Nordestal,
Recife, 2010)

quinta-feira, 20 de maio de 2010

QUATRO ESTUDOS NU POEMA (4)

ando nos mesmos corredores dos homens comuns
& me cerco dos hábitos cotidianos, colocado
nos supermercados, cinemas, bares, nos becos me oriento
para ser capaz como os outros,com os mesmos vícios
que alegram as famílias & o Governo
tomando ônibus, táxis, bebendo neurose na capital
& consumindo tédio nas cidades do interior
me esforço para conduzir assim este corpo magro de vidro
pelas ruas onde todos os olhares me rebuscam
eu escrevo como quem pratica crimes perfeitos
sem paz & alegria para esta descoberta inesperada



(do folheto UM DOIDO E A MALDIÇÃO DA LUCIDEZ,
Juareiz Correya, Palmares,PE, 1975)


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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20
- Juareiz Correya
(Panamérica Nordestal Editora, Recife, 2010)

domingo, 9 de maio de 2010

QUATRO ESTUDOS NU POEMA (3)

assim o espanto me conduz
eu sei onde estou & não sei aonde vou
no cérebro guardado posso consultar a memória
mas o que me interessa assalta minhas energias
sem tempo marcado,
aqui eu me erijo & conduzo o movimento
que não havia surgido, a palavra que não tinha nascido
a emoção que jamais despertara,
a música que nunca havia musicado estes símbolos.
aqui eu fecundo uma nova espécie, a raça
que não nasceu hoje & nascerá sempre :
eu inauguro, sem festas, o poema

sábado, 1 de maio de 2010

QUATRO ESTUDOS NU POEMA (2)

o que eu digo gargaloa escarrado na boca
eu sou o agitador & a platéia deste comício
me espero onde não há saída, venero a podridão
sujo tudo que brilha, eu sei que a lama
alimenta este mundo,
eu abro o olho onde sangro como uma homenagem
para os teus passos, eu cego um olho
& vejo luzes que não queria me incendiando o rosto
com este canto que eu não entendo
& a dádiva que me resume neste gesto

segunda-feira, 26 de abril de 2010

QUATRO ESTUDOS NU POEMA (1)

são vocês que me suicidam na guilhotina das palavras.
a cabeça empenhada nos cestos dos signosfisgantes
assim eu acho viver.
as mãos emagrecem na ossatura da máquina
fêmea rija ao meu encontro
em horas que perdi nos relógios
fêmea eu falus & deposito minha ânsia
em sua mesa, em silêncio
os gritos não gritam nem a tempestade
que se alvoroça em mim
arrasta as suas teclas numa correria rude,
a máquina me ampara como eu necessito
mendigo dessa doença sem remédio me datilografo,
os fios dedosos telegrafam-me neste lugar
& anunciam a minha voz

domingo, 18 de abril de 2010

CANÇÃO DA GRUTA DE VÊNUS




a luz que me nasce fecunda a aurora
do ventre, nascem membros orgãos
o respirar cronométrico do sangue
correntes espelham sua nova fonte.
o corpo se estende
os seus caminhos na minha frente
todo um país que não se descobre
conheço as suas montanhas vales
praias & lugares comuns sob os meus pés
reviram-se seus climas e erupções
eu me aprofundo & em suas regiões
reinam mistérios intangíveis.
o corpo é longo
eu mergulho em sua densa sinuosidade
me exploro exausto morto de cansaço
cedendo ao chão a minha febre.
diante de ti me levanto
a exibir o orgulho que te fascina
macho que te ampara, se oferece
para viajar em tua carne
deflorar teus prazeres de dentro de ti
minha boca despeja-se em teu corpo inteiro
bebendo suores & distribuindo lampejos
com a língua múltipla me reparto
sobre o teu corpo ampla lascívia com que te quero
& ondulo revôo leve aliciante mágico
odor onírico dos teus espasmos sensuais.
cavalgo ferindo a tua terra
o meu pênis vigoroso galga
ando as macias dunas da tua carne
espalhada em mim
me enfio em ti & o teu corpo
me envolve & me alonga neste abraço
em que eu me faço & te faço, dentro de ti viril
& quente meu pulsar másculo aninhado
em teu útero, sou este músculo de fogo
que te penetra
& te enche & te alegra, mulher
para te completar em mim, dentro do teu corpo
eu rodopio & me descubro.
tudo ofereço & te dou expondo minha luxúria
para a tua sede
quero beber o teu corpo
todo me inundar em tua essência
com a boca escancarada me debruço
sobre as tuas coxas & te sacudo o corpo
largo campo de tépido orvalho é o púbis
no meu rosto & eu me solto bêbedo
com o cheiro das tuas entranhas,
abro as paredes do teu sexo
com uma jibóia saindo-me da garganta,
o céu escarlate chove tua seiva em mim
& eu sorvo tudo, minha extensa fome
o berro do gozo em convulsões vitais
imerso em ti como quem regressa.



(do folheto UM DOIDO E A MALDIÇÃO DA LUCIDEZ,
edição do autor, Palmares, PE, 1975).

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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20,
de Juareiz Correya (Panamérica Nordestal, Recife, 2010)

sábado, 27 de março de 2010

URBANADA & OFERTA DE MIM PARA QUEM APODRECE

tu és a mesma longa louca luxenta besta
a mesma mesminha cidade do mundo parida sem paz
e eu me convido para os teus dentes
onde são triturados todos os homens, pastéis quentes
eu não posso dormir com a tua agonia, cidade horrível
nem tenho mais nada nem sou mais nada boiando na tua gosma
como você fede inteira, que ânus imenso você abre
esfolando os céus
temperando o ar de arrotos
e te comportas com a merda de quatro séculos
adornando tua pose
me falas puta mundeira dos teus filhos monstros grandes
e desse brilho roxo que carregas nas avenidas mercantes
segredas segredos que me metem medo metem
guindastes capitalistas na barriga do povo
dos milhões de povocélulas que povoam tua fome incansável
antro nacional pasto continental charco ocidental
eu já nem sei o que fazer deste encontro contigo
eu que te amaria humanóide apenas
sem qualquer bandeira americana acenando meu riso
eu te amaria como a qualquer uma, contando meu respirar
nas tuas chamas azuis nestas vulvas e pus
cidade horrível
merda metrópole metro merdópole fantasiada
de tudo quanto anunciam as agências de publicidade
de tudo quanto fazem os porcos festa
para a humanidade que está nascendo e morrendo diariamente
com um câncer gigantesco e tão bonito na cara
fabricado made in São Paulo pelas tuas chaminés
que enorme e fétida e maravilhosa miserável é a tua alegria
contando os anos que nos separam da morte natural por asfixia
com poetas virgens amando computadores eletrônicos
e cios populacionais reduzidos a cicios
e mulheres ridentes extirpando os próprios sexos
nas ruas
tudo nada remove teu ritmo ébrio de euforias
e sonhas monumentos e futuros
abortas zumbis multiplicas com a tua febre fantástica
os ambulantes
maquináveis são todos os teus gestos e essa fúria
material castrando a minha voracidade,voraz cidade
perdida



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Do folheto UM DOIDO E A MALDIÇÃO DA LUCIDEZ,
de Juareiz Correya (Palmares, PE, 1975)

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

FLASHEGRAFIA




eu sou tantas vezes uma façanha inédita
mas a rua é pouca para o meu corpo a rua a rua
é pouca eu vibro e os cordões que me ligam
nos ossos têm mil bombardeios-ziguezague
como todos os carnavais
são tão fracos para que eu estire a pele entregue a pele
às carícias do vento e montes de sol meu corpo
meu corpocolorido meu cor po colori do meu korpu kolorydo
meu corpo colorido
se adianta para que ninguém adormeça
e anjos e demônios dancem nus
e conheçam-se os sexos
para você eu me dou e me amplio
inteiramente quero expor entre os dedos teus desejos
quero os meus sentidos crus comidos pelo teu sorriso
esporrado eu me dou e me amplio assim
e as ruas são curtas para o meu corpo colorido
luzverberando luzes e uma multidão de batuques
meus olhos acesos faróis gigantes
espalham flores vermelhas nas calçadas nas portas
e espalham flores maiores que as casas
flores vermelhas meus olhos acesos faróis gigantes
nem a avenida
larga como o dorso de uma montanha
nem a avenida sustenta o meu corpo
e eu quero abrir os braços
para que os músicos saiam das carnagens
do meu peito e atropelem
subam nos meus braços pulem
no chão liso destes músculos descascados
subam em mim com ritmos de frevos loucos
eu me reparto com vocês tomem
e a cidade inteiranormal tão grande não tem espaço
para o meu corpo colorido o meu corpo colorido
o meu corpo colorido cobre a cidade como um véu
estraçalhado de luzes ferozes e batuques
e batuques
cantem, rasguem as gargantas
eu cresço
mastigo os ares como uma granada
multiplangente me afogo no meu suor
bebedo, com estrelas e
planetas nos bolsos



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(do folheto UM DOIDO E A MALDIÇÃO DA LUCIDEZ,
Juareiz Correya, edição do autor, Palmares,PE,1975)

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

PARAFRASE A MAIAKOVSKI

"sou todo coração"
(MAIAKOVSKI)



nos demais
- isto se sabe naturalmente
e mesmo com certa vulgaridade -
o sexo está plantado
(entre as pernas)
num altar sob o ventre.
em mim
a anatomia bemlouqueceu :
sou todo sexo



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(do folheto UM DOIDO E A MALDIÇÃO DA LUCIDEZ,
de Juareiz Correya, edição do autor,
Palmares, PE, 1975)

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

HISTÓRIA NATURAL DO NOJO

abro a cara :
o mundo me oferece
homens e mulheres
que esqueceram de ser parceiros
e são pariceiros no amor.





(do folheto UM DOIDO E A MALDIÇÃO DA LUCIDEZ,
de Juareiz Correya, edição do autor, Palmares, 1975)

domingo, 24 de janeiro de 2010

OFÍCIO DOS OSSOS (para Juareiz Correya)




O que tens, poeta, é bem pouco
ou muito ou nada ou o que seja serve
para tua mitologia, sem sentidos
tens os pés e a hora do poema cheia,
uma enchente pelas ruas da cidade que significas.
Tens o prato; e a prata ?
tens a prata, uma pata medonha
que te esmurra de passagem
no meio do povo,
de novo,
todos querem ver
o tabefe te cobrindo o rosto, a rubra vergonha
que não tens e te roubas, tentando
palhacear, tentando palha cear
teu prato direto estômago chato
esta vida não te dá enjoos ?


Poeta, o que tens
não representará nunca teu minuto de sorte
contado teu tempo
escalas escadas
e te calas ? tu falas
safado, teu feijão é muito
(suficiente para qualquer um) desnecessário
para teu apetite, tua ração
faz falta aos porcos.


O que tens poeta não mereces
e se recebes um cruzeiro por igual valor
envergonhas o câmbio.
O que tens poeta é o que te cabe
e não serviria mesmo para ninguém mais.
O que tens, excedência dos outros,
existe apenas para teu desassossego,
para a miséria que permutas em teu nome
pelos que te esquecem,
em sacrifício dos que te evitam,
pela alegria dos que te entristecem,
pelos cacos da ruína que edificas
com essa nudez que surpreende os cães da platéia,
com essa nudez em que estrepas tesa
a confusão de ser




(do folheto UM DOIDO E A MALDIÇÃO DA LUCIDEZ,
de Juareiz Correya, edição do autor, Palmares, 1975)

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

CANÇÃO DE QUEM SE FAZ AMANTE




De que me serve este amor
como uma chaga aberto ?
Na cidade de criaturas vazias
perdi a noção de mim
enegreci o cheiro do meu calor
enterrei o meu sexo
num buraco de excrementos sem raízes.
De que serve tudo isto
& a beleza que eu carrego
& as minhas palavras sinceras
& a luxúria dos meus gestos expostos ?
Caminho apenas
para evitar esses desencontros que se forjam
a minha espera em cada esquina
& se metem casa a dentro pregados
na minha roupa & pulando rutilantes na máquina.


Vou não sei por que abraçar a madrugada
pois as desesperanças me sacodem
por dentro como uma bolsa em que coração
& músculos sem peso estiram-se
& vibram num orgasmo masturbado.
Amar é apenas uma expressão vaga
na boca de quem me ouve.
Minhas correrias pelas ruas caladas
são buscas inúteis & eu me ofereço
eu me ofereço amigo & quente
tenho a carne toda para repartir
em cada instante & por mil atos
multiplicarei os meus pedaços.
Eu quero servir minha condição máscula
como quem espalha
sua febre & sua peste em torrentes
sobre os céus da cidade
& derrubar as árvores de solidão cimentadas
nos rostos que encontro.




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(do folheto UM DOIDO E A MALDIÇÃO DA LUCIDEZ,
edição do autor, Palmares, PE, 1975)