sexta-feira, 4 de maio de 2012

A CRIAÇÃO DOS HOMENS




O poeta toca as palavras,
magia que toca as pessoas.
Há uma multidão em sua fala.
As palavras germinam,
crescem, andam, ardem, crepitam
e fenecem. E todos os dias ressuscitam.
Como ressuscitamos.
Com um sopro e um sol pronunciado.
As palavras animam-se completamente
e nuas ou bem ou mal vestidas
vivem e fazem parte
do universo das horas.
Vão para além, numa viagem
cedo ou nunca interrompida.
As palavras são pétalas,
carne, espírito e luz.
O cheiro próprio, a sonoridade única,
o modo inconfundível, o gesto inteiro,
o gosto pleno, o corpo aberto,
a presença exata,
a palavra não foi, nem poderia ser, nem será,
a palavra é apenas o que é. 
E a sua residência não é a terra,
nem a infinita cidade das galáxias,
ou os tratados, as gramáticas
e os tumulares dicionários :
é o interior do coração.  


(da antologia POETAS DOS PALMARES
- Fundarpe / Secretaria de Turismo, Cultura e Esportes /
Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho,
Recife, Palmares, 1987)


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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA 
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, de Juareiz Correya  
- Panamerica Nordestal Editora, Recife, PE, 2010