domingo, 17 de abril de 2011

HERMILO ENCANTADO

para Leda, a companheira.



na hora H, te encantaste, Hermilo.
a tua hora sem linhas, Estados, convenções, estratégias,
dor no mapa da vitória, sorte dos aliados :
a tua hora sem homens, como em nenhum tempo.
na hora-Hermilo teu nome expira
e o mundo se apequena mais do que Palmares
- universo maldito
como a tua boca vomitando tanta vida.
não é mais um, ou menos um, que se vai ou passa,
porque não há mais conta para esta desgraça:
é você quem some, Hermilo
é você quem conta
nesta hora sacana sem respeito à ereção do teu nome,
contágio do Homem.
na hora-Hermilo, sagrada por ti,
desaparecer por encanto desnorteia a gente
até uma oração que te deixaria puto :
- a vida é uma merda.
que será de Goguéia, Mucurana, Zumba-sem-dentes,
Bole-sem-Tempo, Veado-Podre e Fanhim ?
que será dos fodidos, das putas, do eterno Pirangi,
que será de tudo, de todos, que será de mim ?
na hora-H ninguém te elegia, Hermilo
- teu sangue vivo bulindo
bombeia o coração da esperança,
tu dando pinotes,
passando a mão na bunda da Morte,
cagando pra Glória, sonho de todo mundo.
na hora-Hermilo a gente só se conforma
porque sem medo, derrota, mentira e covardia
teus assombros vitais
anularam as Bestas safadas
e as Feras dos dias.



(do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA,
de Juareiz Correya
- Nordestal Editora, Recife, PE, 1982)


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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20,
de Juareiz Correya
- Panamérica Nordestal Editora, Recife, PE, 2010