quinta-feira, 30 de julho de 2009

CANÇÃO

Dia para fecundar ilusões
em que o meu corpo se acalme sem o teu
corpo que não me chegou por nenhuma via,
e o meu cérebro apodreça com sedativos
vaporosos.
Dia amargo. Não sei o que fazer corretamente
não sei, enfrento caras obesas de hábitos
dentro da rua
sem calma, inquietação, sem sentimentos,
tenho ódio de tudo com a força morta
dos meus dedoscabelos amarrados nas janelas dos apartamentos
e uma sensação idiota de que abro vazios
dentro de mim com um bisturi enferrujado
e sangro pelas cicatrizes fétidas
cobrindo-as com pastas de tuberculose e dentes de máquinas
mastigo pelos braços vagamente bolos de nada.
Poemas gargaloam secamente até a minha boca
e os meus gritos gelam as estrelas que ardem
dentro das salas onde são seviciados e torturados
os homens do meu tempo,
onde a minha geração sacrifica-se
pelo bezerro de ouro das igrejas depravadas
e os anjos bíblicos
forjam cadeias para as suas alegrias.

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( antologia POETAS DE PALMARES,
Editora Palmares, 1973)

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Catherine Deneuve (III)

Catherine eu me esforço e não te conheço
além do pouco espaço desta cama e tenho medo
e sinto frieza nos ossos quando os teus olhos
se afastam do meu corpo teus olhos Catherine
me inundam e me enfraquecem e exigem tantas vezes
o meu sexo que me impõem a sensação de que estou
aridamente seco estéril
sou eu Catherine que me arrasto sem forças
nos teus olhos e arrebento com fúria todas as coisas
com os teus olhos Catherine não é possível
que este quarto seja um quadro de solidão
com a tua presença Catherine não é possível
a câmera fecha-nos em círculos cada vez menores
e explora a cama e os nossos corpos Catherine
mas não é possível uma cena onde se respire solidão
com a tua presença Catherine com os teus olhos
Catherine em cima de mim na cama



( antologia Poetas de Palmares,
Editora Palmares, 1973)

terça-feira, 21 de julho de 2009

Catherine Deneuve (II)

além do pouco espaço desta cama eu me esforço
e não te conheço como o mundo é tão estranho
quando caminho pelas ruas e te procuro
eu vejo teus cabelos claros esvoaçando com a brisa
apertada dos subúrbios e teu riso mágico
e teus olhos grandes e me penduro nos teus lábios
confusos sorvetes sólidos cachorrosquentes
em guardanapos de poemas pornográficos desenhados
eu te procuro Catherine além do pouco espaço
desta cama eu me esforço para te alcançar
na tarde do parque florido e teus pés leves
fogem em torno de mim sobre as árvores
e teu corpo nu e tua nudez de mármore puro me alucina
Catherine tuas coxas louras tuas nádegas teu dorso
e eu rodopio Catherine e sobre as árvores admiradas
e sobre cabeças caídas teu vôo me sacode entre répteis fracos
me esforço para te alcançar
e tu danças no meio de nuvens verdes

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Catherine Deneuve

não te conheço além desta cama Catherine
além dos limites desta cama do pouco espaço
e eu não sei esconder a emoção quando ela
me sacode como uma britadeira a emoção
que me descobre nos rios dos teus olhos Catherine
ah se inventarem outro slogan miserável
como este eu matarei com as minhas mãos a rainha
da Inglaterra, Catherine eu não te conheço
além desta cama teus olhos me acalmam como um beijo
morno teus olhos calmos doces carregam tua voz
para me infundir mistérios Catherine eu penso
que tua alma tem a vida de pântanos e de lugares
onde reina uma paz assombrosa teus olhos pacíficos
me derrotam nesta cama e teu corpo me cobre
com a cárnea alegria do sexo Catherine
quero comer-te todos os membros quando os teus olhos
se abrem assim

Poema vago olhando a cidade

Minha cidade
ficará gravada
num poema lívido e vago
Não será preciso citar becos e ruas
inevitáveis em sua anatomia.
Nem correr com a memória
as lembranças e os minutos de agora.
Minha cidade
não será vista
num poema sentimental.
Conservarei oculto até o seu nome
Neste poema
de amor silente
às suas coisas, a ela mesma.
Palmares, janeiro / 1970.

terça-feira, 14 de julho de 2009

AMERICANTO AMAR AMÉRICA & OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20

Neste livro, apresento a minha poesia reunida publicada no século passado, e a sua publicação
completa um ciclo de 40 anos da minha produção poética. São poemas publicados em antologias, livretos, folhetos, livro-solo, álbuns, até a última década do século 20.
Não incluí, nesta reunião, os 40 poemas do meu primeiro livro de poesia, sem título, publicado em São Paulo no ano de 1971, e os poemas desse período que foram publicados em duas antologias paulistanas - POETAS DA CIDADE / SÃO PAULO, números 2 e 4 - organizadas por Renzo Mazzone (Editora Ila Palma, São Paulo, 1970/71); não incluí também os 45 poemetos das duas edições de CORAÇÃO PORTÁTIL (a de 1984, edição do autor, em tiragem de 500 exemplares, fora do comércio, e a de 1999, publicada pela Nordestal Editora, do Recife, em tiragem de 500 exemplares). O meu livro de estréia está ausente porque o considero, hoje, pelo seu hermetismo experimental, bastante distanciado do que eu acredito ser a poesia que escrevo; e CORAÇÃO PORTÁTIL é o que é, um pequeno livro assumidamente autônomo, ainda em crescimento, com a vida própria que eu quero que ele tenha.
Nestes 40 anos de poesia é claro que produzi também textos ainda não publicados e que fazem parte de outros títulos autônomos - TODOS OS SETEMBROS, A PALAVRA MAIS HUMANA, AMAR RECIFE, POEMAS DO NOVO SÉCULO - prontos para publicação. E os publicados no livro POESIA DO MESMO SANGUE, produzido em parceria com o meu filho José Terra (Panamérica Nordestal Editora, Recife, 2007).
Em síntese - que é o princípio da Poesia - creio que, sobre este livro, o essencial já está dito.

JUAREIZ CORREYA
(Recife, julho / 2009).