domingo, 13 de junho de 2010

DO DESAMOR BERRANTE

deitado em teu corpo sou eu quem estremeço
de tremores crispados à flor dos meus dentes
sem um soluço gemido misturado
à chama da fala que se apaga sem espancar teu rosto.
sou eu quem mergulho em mim e me abarco com as mãos vazias
desorientado e só neste deserto de quatro paredes
em que tua voz distante não te anuncia
em qualquer rotação.
a cama não é teu ninho, a cama é teu holocausto
e te estiras inerme quando eu brilho meu sexo
ao teu alcance e silencias quando me afundo em teus braços
como quem me vê conduzindo as trevas da noite irretornável.
a tortura não te escalda a carne
e sou eu quem sinto na pele nos ossos os rombos
de sua frenética paixão e o clangor de suas cadeias
fere e dói fundo e amor-talha minha ternura
desprezada nos lençóis com o avesso
desta oferta máscula que te faço




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do folheto RECITY RECIFE - UM
(Casa da Cultura / Governo de Pernambuco,
Recife, PE, 1976).

sábado, 5 de junho de 2010

PONTE SOBRE ÁGUAS TURVAS






se teu sorriso
não movesse o rio
contra as correntes do leito
onde escorre
eu poderia sim eu poderia
cair nesta noite
sem esperança de te encontrar


minha canção é tão pouca
minha canção chove
e me faz um homem débil
tua lembrança joga no meu rosto
teus braços cheios
de plantas e odores
teus peitos macios de tremores
e de nuvens encharcadas


cigarros sapatos cuspo pedaços
de árvores e de pássaros
e tuas palavras algumas, que eu misturo
com seixos assovios e a melodia
que você gostava de ouvir na minha boca
agora também o céu é feio e não tem graça
tua lembrança me entristece
e me enterra
nestes espelhos




(do folheto RECITY RECIFE - UM,
Casa da Cultura /Governo de Pernambuco,
Recife, 1976)


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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20 - Juareiz Correya
(Panamérica Nordestal, Recife, 2010)