quinta-feira, 27 de agosto de 2009

AMERICANTO AMAR AMÉRICA (3)

América
tua alegria me embebeda eu sou teu
deus poeta incandescido no teu ventre
teus olhos brilham poemas terríveis
gaivotas criminosas de Ginsberg
& me enfeitam & me enfeitam
arcoiris de luas gigantescas
empoeiradas nos ruídos das motocicletas
& há tanta doçura na gasolina
matando a sede na minha garganta &
alucinógenos & lírios & violetas & roseiras
& porres de cocaína & rolos de maconha

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

AMERICANTO AMAR AMÉRICA (2)

América
eu me dou com este corpo de criança
que a tua febre come e joga
para os céus dos chacais
meu corpo virgem nas estradas
que a tua volúpia rodopia
além onde estão todas as promessas
para que o meu gozo encha os mares
& enterre todas as florestas
com tempestades de espermatozóides

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

AMERICANTO AMAR AMÉRICA


este poema é dedicado
à geração beat norte-americana
que pariu o Anti-Sonho
nos anos 60.


América
mulher de carnes cruas pregadas no meu peito
como colunas de ventos colossais
meus gritos são alegria de tambores
& montanhas de plástico
são doces campos de açúcar
& rios de sangue cheios de troncos negros
queimados na dança dos teus cabelos
que a noite estupra gargalhadando




segunda-feira, 10 de agosto de 2009

FINADIA

"Cavalgou mil camelos
nas dunas do coração inquieto.
Descansa, Lawrence of Arábia."
(EPITÁFIO, de Érico Max Muller)


Há urubus desgarrados
contra o céu
pela manhã.
Este não é um dia como outro qualquer ?

Sim, a tarde não foi feita
para estes rostos falsos cinzentos mascarados
eu sobrenado no cemitério ridículo
onde besouros acendem velas
e iluminam os semblantes dos mortos
florindo nas sepulturas.
Histórias saem do chão
e arrotam contra o meu peito
odor e elos com as suas bocarras estendidas.

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(antologia POETAS DE PALMARES,
Palmares, 1973)

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

VELHA SECA

Se vocês conhecessem a mulher que eu falo
não saberiam o que dizer.
É difícil imaginar uma mulher desprezível ?
Quando ela se aproxima da gente
não há quem não reaja de algum modo,
e são fáceis as caras de nojo e as brincadeiras,
eu penso que ela vive de esmolas que lhe dão,
ou se embebeda à toa,
a velha ri com os dentes estragados
sem equilibrar-se nas pernas finas, as pernas finas
dela em meias ralas de lã
e um casaco pobre que ela aperta
para abrigar o peito murcho,
a velha ri e diz coisas ininteligíveis
como uma caveira alegre.
Ontem eu estava louca pra fazer, ela disse assim
sem espantar as caras habituais do bar.
E contou se afogando no copo de vinho
que procurou um homem a noite inteira
e não encontrou nada,
que passou a noite inteira com vontade
de sentir um homem entrando nela
e ela entrando no homem,
ela disse que ficava sem saber o que fazer
quando tinha vontade, ficava como louca
procurando homens o dia inteiro.


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(antologia POETAS DE PALMARES,
Palmares, 1973)

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

HISTÓRIA DE PROVÍNCIA

a velha apareceu na loja toda tremendo
com as mãos na cabeça
sem saber o que dizer
mas disse
que o mundo tava se acabando
e o estudante correndo com o coração na boca
atropelou muita gente
porque pensava que o exército
metia porradas no povo
pra prender subversivos
só o poeta viu os cavalos copulando na feira
do domingo ensolarado
viu os cavalos copulando sobre toldas
e caixotes de legumes e vendedores apavorados
só o poeta identificou o que causava
tanta confusão na rua naquele dia
num poema rindo

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( antologia POETAS DE PALMARES,
Palmares, 1973)