segunda-feira, 26 de abril de 2010

QUATRO ESTUDOS NU POEMA (1)

são vocês que me suicidam na guilhotina das palavras.
a cabeça empenhada nos cestos dos signosfisgantes
assim eu acho viver.
as mãos emagrecem na ossatura da máquina
fêmea rija ao meu encontro
em horas que perdi nos relógios
fêmea eu falus & deposito minha ânsia
em sua mesa, em silêncio
os gritos não gritam nem a tempestade
que se alvoroça em mim
arrasta as suas teclas numa correria rude,
a máquina me ampara como eu necessito
mendigo dessa doença sem remédio me datilografo,
os fios dedosos telegrafam-me neste lugar
& anunciam a minha voz

domingo, 18 de abril de 2010

CANÇÃO DA GRUTA DE VÊNUS




a luz que me nasce fecunda a aurora
do ventre, nascem membros orgãos
o respirar cronométrico do sangue
correntes espelham sua nova fonte.
o corpo se estende
os seus caminhos na minha frente
todo um país que não se descobre
conheço as suas montanhas vales
praias & lugares comuns sob os meus pés
reviram-se seus climas e erupções
eu me aprofundo & em suas regiões
reinam mistérios intangíveis.
o corpo é longo
eu mergulho em sua densa sinuosidade
me exploro exausto morto de cansaço
cedendo ao chão a minha febre.
diante de ti me levanto
a exibir o orgulho que te fascina
macho que te ampara, se oferece
para viajar em tua carne
deflorar teus prazeres de dentro de ti
minha boca despeja-se em teu corpo inteiro
bebendo suores & distribuindo lampejos
com a língua múltipla me reparto
sobre o teu corpo ampla lascívia com que te quero
& ondulo revôo leve aliciante mágico
odor onírico dos teus espasmos sensuais.
cavalgo ferindo a tua terra
o meu pênis vigoroso galga
ando as macias dunas da tua carne
espalhada em mim
me enfio em ti & o teu corpo
me envolve & me alonga neste abraço
em que eu me faço & te faço, dentro de ti viril
& quente meu pulsar másculo aninhado
em teu útero, sou este músculo de fogo
que te penetra
& te enche & te alegra, mulher
para te completar em mim, dentro do teu corpo
eu rodopio & me descubro.
tudo ofereço & te dou expondo minha luxúria
para a tua sede
quero beber o teu corpo
todo me inundar em tua essência
com a boca escancarada me debruço
sobre as tuas coxas & te sacudo o corpo
largo campo de tépido orvalho é o púbis
no meu rosto & eu me solto bêbedo
com o cheiro das tuas entranhas,
abro as paredes do teu sexo
com uma jibóia saindo-me da garganta,
o céu escarlate chove tua seiva em mim
& eu sorvo tudo, minha extensa fome
o berro do gozo em convulsões vitais
imerso em ti como quem regressa.



(do folheto UM DOIDO E A MALDIÇÃO DA LUCIDEZ,
edição do autor, Palmares, PE, 1975).

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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20,
de Juareiz Correya (Panamérica Nordestal, Recife, 2010)