sábado, 31 de dezembro de 2011

DISCURSO POÉTICO

"todo poeta é um subversivo"
(Juareiz Correya)


subverto as manhãs com esta violência
de tardes e noites inconsequentes
escangalhando o dia sem contar as horas
faço o tempo pelos ponteiros que perdi
e instituo o levante da minha decadência
não troco a língua nem vendo o nome
decretando entregas e condenando recusas
estandarte de ilusões rasgadas
não canto hinos com estribilhos de amor
por viver inseguro do tamanho de uma pátria
eu me limito à nação que me chamo
e a cada instante república nova proclamo
contra o império da dor e do abandono
anistio vencedores elejo quem se derrota
livro prisões dos horrores dos homens
marcha nas ruas o exército da minha desordem
e eu abro portas com as mãos do regresso



(Do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
- Nordestal Editora, Recife, PE, 1982)



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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20,
de Juareiz Correya
- Panamérica Nordestal Editora, Recife, PE, 2010

sábado, 10 de dezembro de 2011

POEMA DE CIRCUNSTÂNCIA





não tenho tempo de escrever este poema
sábado roto, embora cheio de sol,
esta cidade puta não oferece perspectivas
para que eu ame uma mulher de verdade
a qualquer hora
este poema tem o suicídio de um general
& guerra religiosa nas ruas de Belfast
por que vocês não matam logo o presidente dos Estados Unidos ?
& uma avalanche assassina
com 60 mortos a domicílio


este poema sem tempo
parido nos meus & nos teus hábitos
cobrados à força no pedágio
tem desastres mirabolantes tão simples
& o cheiro de peixes fritos
& disparadas músicas no teu quarto,
burguesinha.


VIA TELEX

ESCREVO ESTE POEMA NÃO HÁ MAIS TEMPO DE ESCREVER ESTE POEMA MAS EU NÃO POSSO ESQUECER QUE MILHARES DE PESSOAS ESTÃO MORRENDO AGORA QUE A SOLIDÃO COME OS HOMENS EM PRATOS SUJOS E SABOREIA AS SUAS DORES COM UISQUE SAFADO QUE O AMOR EH UMA BOSTA DE PECADO EM TODAS AS CABEÇAS QUE NÃO HÁ HOMENS E MULHERES SE AMANDO NAS PRAÇAS NOS ÔNIBUS NOS TRENS ELÉTRICOS NAS CALÇADAS DO CHÃO DAS RUAS NÃO HÁ HOMENS E MULHERES SE AMANDO DESESPERADOS SE AMANDO COM MUITO DESESPERO SE AMANDO MUITO PORQUE NÃO HÁ MAIS TEMPO




(Do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA,
Nordestal Editora, Recife, PE, 1982)


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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, de Juareiz Correya
- Panamérica Nordestal Editora, Recife, PE, 2010

domingo, 20 de novembro de 2011

POEMA NÚMERO ZERO



Não acontece nada.
Não está acontecendo nada.
QUE IMPORTÂNCIA TEM A MINHA POESIA ?
Não tem nenhuma importância.
E eu escrevo e eu escrevo e eu escrevo sem parar
para essa tua indiferença rotulada na carteira de identidade,
eu escrevo canções que não serão cantadas
jamais pelos homens,
eu escrevo poemas sem significado para o teu peito
amigo,
preencho com clareza os meus próprios atestados de óbitos
e vocês sabem que mutilam-me os membros equestres
com a sua condição miserável espalhando horrores no meu cérebro,
e vocês não dizem nada e vocês sequer
dão-me uma palavra pouca em troca destes cadáveres.
Mesmo que eu não escrevesse este poema
o presidente dos Estados Unidos e seus criminosos
matariam com inteligente raciocínio
mesmo que eu não escrevesse este poema
o papa Paulo Sexto no Vaticano reclamaria com veemência
porque não pode roubar os jovens de hoje
mesmo que eu não escrevesse este poema
Moscou enterraria com regularidade os seus artistas
em mostruosos sanatórios para doentes mentais
mesmo que eu não escrevesse este poema
as guerras comercialmente se embebedariam
com os excrementos atômicos
mesmo que eu não escrevesse este poema
a fome no coração do Nordeste brasileiro
roncaria o seu barulho dantesco
mesmo que eu não escrevesse este poema
as crianças de todos os países
acordariam normalmente assustadas
mesmo que eu não escrevesse este poema
a tua indiferença, meu amigo, estaria friamente
preparada para enfrentar a angústia do mundo
mesmo que eu não escrevesse este poema
a tua vida começaria as 7 da manhã com intervalo para o almoço despedida do relógio do ponto as 6 horas da tarde & um programa de televisão depois do jantar ou um filme muito badalado na cidade consequentemente volta para casa no mundo fechado do teu automóvel superconfortavel & o resto da noite na cama com a tua
burguesinha
pois os bêbedos e os loucos e os intranquilos
só existem nas esquinas podres
e na boca de lixo deste poema
P O R R A !
mesmo que eu não escrevesse este poema
todas as mulheres e todas as meninas não saberiam
estupidamente que existe um deus nas ruas
um deus desesperado com a sua boca sensual
vomitando poemas fálicos um deus imenso
com a sua carne ardendo êxtases agônicos


se eu não escrevesse este poema não aconteceria
nada, nada nada simplesmente nada
mas eu enfrento tudo
& não preciso de imagens & de safadeza literária
& de metáforas
não preciso de outra coisa além do meu sangue rubro
não preciso de nada além da minha loucura onírica
de nada além da minha caótica presença



São Paulo, 1974.


(do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA,
Nordestal Editora, Recife, PE, 1982)


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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, de Juareiz Correya
- Panamérica Nordestal, Recife, PE, 2010

sábado, 5 de novembro de 2011

PÁSSARO PINTADO

"Por um instante a surpresa tolhia os pássaros.
A mancha colorida voava em meio ao bando,
tentando convencê-los de que lhes pertencia.
Mas, confundidos pela plumagem brihante,
os outros o rodeavam incrédulos e quanto mais
o passáro pintado tentava incorporar-se ao bando,
mais o rejeitavam. Logo, um depois outro,
começavam a atacá-lo, arrancando-lhe as penas
multicores, até fazer-lhe perder as forças,
precipitando-o ao chão."
(JERZI KOSINSKI)




Vou andar por aí em nome dos homens.
Sujeito da vida a qualquer mudança
estarei com os meus, iguais semelhantes,
na rota dos passos,de aérea esperança,
aérea,pois não.
E direi que sou o meu próprio nome
-identificado homem,
para vivermos juntos a mesma humanidade.
NÃO IMPORTA COMO NÃO IMPORTA VG
sim a humana identidade.
Mesmo que eu lhes pareça espantalho,
que não copie a sua moda,
nem altere a multidão dos que estão na fila
conjugando o tema do dia do sistema.
Mesmo que a minha voz
palavre o nosso sangue e em suas bocas
eu reconheça exércitos
de dentes armados.




(Do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA,
Nordestal Editora, Recife, PE, 1982)


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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, de Juareiz Correya
- Panamérica Nordestal Editora, Recife, PE, 2110.

domingo, 23 de outubro de 2011

PORRE CERTO

Os olhos do poeta me investigam acima de qualquer suspeita.
São olhos fogo aceso fogo morto
os ombros magros e firmes suportam o meu peso
e de todos os homens do bar das ruas das famílias
do meretrício da igreja da prefeitura
eu falo mas eu gostaria de saber o que ele deseja
que eu lhe diga realmente.
Suas mãos afiladas movem-se
na mesma cadência dos cubos de rumgelo tilim tilim
no copo, o poeta estende-se na minha frente
como um campo largo e canta o hino nacional
com um sorriso falso,
o poeta tem no rosto um céu limpo e me diz :
todos estes anos não escondem um país de merda,
o balcão do bar é de merda,
as mesas do bar são de merda,
os homens fedem as ruas fedem
as casas os cinemas as intenções fedem
e eu sou um rato miserável porque não sei gritar
até me arrancarem os pulmões.
Alguém passa assoviando o poeta se afoga
no copo de rum olhos fogo aceso fogo morto
mãos afiladas o tronco as pernas os braços estouram-lhe
e o poeta angustiado derruba as paredes do bar,
agita o teto do bar para o alto,
eu espero um dia alguém se aproximar e dizer,
você é poeta ?
quem foi que te disse que você é poeta ?
que autoridade te reconheceu e te permitiu ser poeta ?
a que sociedade você pertence ?
e o poeta não sabe que os poetas são presos
e espancados e seviciados e mortos neste lugar inocente.
Nem sabe que é mais indesejável que um ladrão vulgar.
Nem sabe que preparam a sua derrota
em uma folha de papel timbrado do Governo.
Cogumelos gigantes levantam-se dos seus sapatos
e a multidão de medíocres não sabe
escolher uma admiração
com os aplausos preparados
para um palhaço sem tomate no nariz
de gravata, estampa brihante na televisão.
Nem é preciso contar a história,
as histórias dos jogadores de futebol
que são heróis no meu país alegre,
por um gol se faz um herói no meu país alegre !
e aqui o poeta espreme um pouco de angústia
entre cubos de gelo e se afoga em rum falso
sem hino nacional para alegrar as noites do meretrício
da igreja quando as casas e os cinemas fecham
e os homens fedem



(do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
- Nordestal Editora, Recife, PE, 1982)



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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, de Juareiz Correya
- Panamérica Nordestal Editora, Recife, PE, 2010.

domingo, 2 de outubro de 2011

SUFOCO NOSSO DE CADA DIA




tento obedecer as normas deste crime
estou falando como eu sei
é tão certa a distância
que nos desorienta
na correria da solidão


eu comigo cheio de mim esborrando-me
diante de bocas murchas e corações desertos
tanto me procuro e de mim só encontro
um resto de humanas perdições
- um rosto de insanas feições
com a bandeira deste amor que não compreendem
dou bobeira e todos sabem por onde passo
do meu carnaval sem época
da minha nudez sem trégua
e das danações que me assanham
e me conduzem aos cadafalsos dos dias
e aos fuzis dos que se escondem nas caras
caladas culpas forjadas na pele do medo
e enterram nos ossos o estampido da voz



(do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA, Recife, PE, 1982)


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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, de Juareiz Correya
- Panamérica Nordestal Editora, Recife, PE, 2010

sábado, 24 de setembro de 2011

IRMÃIDADE

para o poeta Jorge Nascimento


por saber quantas porradas percorremos
traço metros de vida em teu redor
redobro rotas em ensaios de campanhas
que algumas vezes falaremos para os surdos
de surpresa, quando eles todos esperam.
seremos porraloucas parideiros danados
como nos pedem os tropéis do sangue,
a bebedeira que chove na gente,
a gritaria do coração sem tripas
e este amargo nos dentes, nosso próprio açúcar.
que tal dançar para a puta que pariu ?
sorrir larga boca para os babacas vitoriosos ?
oferecer nossas bundas para os pontapés dos cus-sujos ?
que tal a gente deleitar todo o teatro,
e o Júri Oficial, e a Besta-Fera,
e o Estopou-Calango, a Peste Bubônica, Calor-de-Figo
e a Priquita do Mundo
com o gosto da nossa carne ?





(do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
- Nordestal Editora, Recife, PE, 1982)

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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20,
de Juareiz Correya
- Panamerica Nordestal Editora, Recife, PE, 2010

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

ASCENSÃO DE RONALD REAGAN

Um homem velho está no Poder.
Um homem velho como as pradarias do seu país
Virou Águia
E o sangue brilha nos seus olhos
A partir de hoje.


Hoje a América é posse
De um homem velho.
A América estremece inteira
- treme até os cabelos do cu,
possuída por esse homem velho.



Recife, 20.01.81.


(do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
- Nordestal Editora, Recife, 1982)


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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20,
de Juareiz Correya
- Panamerica Nordestal, Recife,PE, 2010.

domingo, 28 de agosto de 2011

POEMA IMBECIL





então
os soldados fardados/armados
e os (secretos) agentes
da polícia federal
no pastoril infantil
prenderam
as luminosas meninas
do cordão encarnado





(do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
- Nordestal Editora, Recife, PE, 1982)


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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20,
de Juareiz Correya
- Panamérica Nordestal, Recife, PE, 2010

terça-feira, 2 de agosto de 2011

LIÇÃO DE CARTILHA




na boca
na boca do povo
na boca do povo nordestino
na boca do povo nordestino do nordeste
na boca do povo nordestino do nordeste brasileiro
na boca do povo nordestino do nordeste brasileiro botaram
na boca do povo nordestino do nordeste brasileiro botaram o ovo
o ovo
o ovo do saco
o ovo do saco de excrementos
o ovo do saco de excrementos de deus
o ovo do saco de excrementos de deus mal
o ovo do saco de excrementos de deus mal passado
o ovo do saco de excrementos de deus mal passado no tridente
no tridente
no tridente ridente
no tridente ridente do demônio
no tridente ridente do demônio fardado
no tridente ridente do demônio fardado fartado
na boca




(do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
- Nordestal Editora, Recife, PE, 1982)


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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, de Juareiz Correya
- Panamérica Nordestal Editora, Recife, PE, 2010

sábado, 16 de julho de 2011

BILHETE BRASILEIRO PARA O AMERICANO

pega esta terra sem vergonha, Sam
e come sua carne seu fruto doce
e ela fica melhor com os teus dentes.
ganha esta terra, sem vergonha Sam
e fode sua gente besta indolente
que ela vai sambar sem ligar pra vida.



(do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
-Nordestal Editora, Recife, PE, 1982)


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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, de Juareiz Correya
- Panamérica Nordestal Editora, Recife, PE, 2011

sábado, 2 de julho de 2011

DOM QUIXOTE DE CERVANTES





Diante do mundo, ferida tão aberta
me faço poeta e vou espaceando
aonde me esperam presidentes & Onus sitiadas
& estrelas de cinema sem divórcio
& putas brilhantes.
Minha poesia raiojogada rebrilaser verbera
assim eu combato no céu de chumbo as máquinas
de todos os partidos & os robôs românticos lançando apelos,
códigos ideológicos.
Me faço poeta, astronauta
para jogar sobre os continentes meu sorriso de luta.
Minha poesia astrolírica fere & a sua fornalha
nem consome as gerações inúteis, bêbedos senis
comendo o seu pão de condição burguesa.
Me faço poeta, poeta eu sou & me chamam louco.
A minha loucura não lhes faz graça nem lhes mete medo.
Poeta, ou esta mania de pássaro & fogo.
Me faço poeta
& as torrentes que eu carrego em cada palavra
& a porra de tudo & tudo de todos & todos tudo em mim
não vale nada para ninguém,
estúpidos espectantes.
Minha poesia é chama de papel higiênico,
é um acidente em página de jornal,
é uma chateação para aqueles que eu amo,
é uma inutilidade para os homens do meu país.
Nada significa eu sei diante de todos.
Mas eu sou poeta & poetando
enfrento as dores do mundo, os horrores de tudo
sobre nuvens de automóveis & guerreiros fumegantes
& máscaras absurdas & potentes estratégias de propaganda
& o último lançamento da indústria de consumo
nas estradas em que eu cavalgo com a minha desesperança
& conduzo meu sonhestandarte.



(do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA,
Recife, PE, 1982)


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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20
de Juareiz Correya
- Panamérica Nordestal Editora,
Recife, PE, 2010.

sábado, 11 de junho de 2011

CANÇÃO PARA VICTOR JARA

"o canto tem sentido
quando palpita nas veias
de quem morrerá cantando
as verdades verdadeiras"
(VICTOR JARA)




morrerei cantando, Victor Jara.
depois dos dedos cortados
as mãos sangrarão ritmos e cordas
e a canção elevará minha voz.
e me cortarão os pulsos
e os tocos dos meus braços
sem instrumentos sustentar
rubros vão balançar
sem minha canção parar.
meus dentes serão quebrados
na minha boca prensados
na garganta atulhados
no meu canto sufocado.
meu rosto disforme de insultos
virado na sanha dos brutos
vai minha vontade cantando
na cara do povo mostrar.
além da loucura e dos urros
da soldadesca assassina
além de chutes e murros
e da bala que elimina
- nesta praça de esportes
onde nos jogam com a morte -
meu povo não calará,
minha voz vai mais cantar,
meu canto não morrerá.
morrerei cantando, Victor Jara.




(do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA,
de Juareiz Correya
- Nordestal Editora, Recife, PE, 1982)


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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20,
de Juareiz Correaya
- Panamérica Nordestal, Recife, PE, 2010

quinta-feira, 26 de maio de 2011

DIA DE LUTA





há um clamor nas ruas
uma passeata de vozes
avança pela cidade
- além do imposto medo
sobre temas proibidos.

há um clamor nas ruas
crescendo por onde vou
liberando no meu sangue
o sentimento do mundo
contra o sufoco gerado
pelo sistema dos homens
negando humanos direitos.

há um clamor nas ruas
pulsando na carne viva
meu coração coletivo
manifestante e vivo.

há um clamor nas ruas
sem domínio da cidade
é urgente proclamar
esse desejo que arde
nos dias novos da gente
- a mais viva liberdade.


São Paulo, 1977.



(do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA,
Juareiz Correya
- Nordestal Editora, Recife, 1982)


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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR
AMÉRICA E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20,
Juareiz Correya
- Panamérica Nordestal, Recife, PE, 2010


domingo, 8 de maio de 2011

ANTILÍRICO

para Paulo Azevedo Chaves



que bicho devora tua cota diária ?
sem plumas, escamas, couro ou cabelos
que bicho é esse que tem uma boca medonha
em cada esquina ?
é dia e é noite quando ele ataca sem rastrear vestígios,
galopando nas terras selvagens
dos corações de só abandono.
não lhe dê luz, não lhe dê sombra,
não lhe dê um assovio companheiro ou uma hora cúmplice,
não lhe dê pão ou bosta,
ele vem com eterna fome, com eterna raiva,
ele não balança a cauda, nem uiva nos telhados,
nem espanta os animais domésticos.
com urros e patas de silêncio
ele golpeia sem sangue e dança nas bordas do sol
sua alegria funesta, guizos
de só solidão.



(do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA,
Juareiz Correya
- Nordestal Editora, Recife, PE, 1982)


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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, Juareiz Correya
- Panamérica Nordestal, Recife, PE, 2010)

domingo, 17 de abril de 2011

HERMILO ENCANTADO

para Leda, a companheira.



na hora H, te encantaste, Hermilo.
a tua hora sem linhas, Estados, convenções, estratégias,
dor no mapa da vitória, sorte dos aliados :
a tua hora sem homens, como em nenhum tempo.
na hora-Hermilo teu nome expira
e o mundo se apequena mais do que Palmares
- universo maldito
como a tua boca vomitando tanta vida.
não é mais um, ou menos um, que se vai ou passa,
porque não há mais conta para esta desgraça:
é você quem some, Hermilo
é você quem conta
nesta hora sacana sem respeito à ereção do teu nome,
contágio do Homem.
na hora-Hermilo, sagrada por ti,
desaparecer por encanto desnorteia a gente
até uma oração que te deixaria puto :
- a vida é uma merda.
que será de Goguéia, Mucurana, Zumba-sem-dentes,
Bole-sem-Tempo, Veado-Podre e Fanhim ?
que será dos fodidos, das putas, do eterno Pirangi,
que será de tudo, de todos, que será de mim ?
na hora-H ninguém te elegia, Hermilo
- teu sangue vivo bulindo
bombeia o coração da esperança,
tu dando pinotes,
passando a mão na bunda da Morte,
cagando pra Glória, sonho de todo mundo.
na hora-Hermilo a gente só se conforma
porque sem medo, derrota, mentira e covardia
teus assombros vitais
anularam as Bestas safadas
e as Feras dos dias.



(do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA,
de Juareiz Correya
- Nordestal Editora, Recife, PE, 1982)


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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20,
de Juareiz Correya
- Panamérica Nordestal Editora, Recife, PE, 2010

domingo, 13 de março de 2011

OS HOMENS, PEQUENOS POETAS





Não leio os que se dizem grandes poetas.
Eles arvoram-se e edificam-se
em suas moradas de sombras
e vocabulares constelações.
Criam distâncias intangíveis
e com apodrecido sangue zumbi
amortecem e anulam a emoção
enfiam no rabo os instintos
castram todos os sentidos
e envilecem os sentimentos.
Sim : mentem e bordam
fedem e pintam.
Do mundo onde estão
(que felizmente não é o nosso,
habitado apenas por um ou outro poeta
sem tamanho)
fingem que a humanidade existe
e cagam para ela somente obras-primas.
Deuses feios e famintos,
eles masturbam-se em sua própria glória
e negam a vida tantas vezes quanto for preciso
para que ninguém entre no Reino-dos-Seus.
Nunca viram o Inferno onde nós vivemos,
nem lavaram a mão com a nossa lama.
E nunca morreram, como tantas vezes renascemos.
Um dia
eles neutronizarão a terra inteira.
E, com a sua palavra cretina e luminosa,
num parto asséptico e sem dor,
inventarão os homens.



(do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA,
de Juareiz Correya
- Nordestal Editora, Recife, 1982)


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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20,
de Juareiz Correya´,
- Panamérica Nordestal Editora, Recife, 2010)


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sábado, 26 de fevereiro de 2011

UMA VEZ BEBENDO, BEBENDO ATÉ MORRER





de bar e de bares,
de porres vazios, de histórias sem graça,
eu conto esta hora.
não importa se bebi, ou de que bar eu vim,
nem se me embebedei no fim da festa.
importa é este gesto,
inútil voz desesperada
tentanto alcançar alguns homens.
importa,
e que importância tem depois
se eu já nem sei
se depois me importa qualquer coisa ?
fico nu
e a verdade é que não estou só,
nem com ninguém, nem tenho ninguém
a me esperar chegando em casa de táxi.
tento acertar comigo o tempo que eu não conheço,
a merda do dia, o cu da existência,
num buraco infinito de pauleiras.
não é nada disso e eu devo dizer
É ISSO AÍ,
está tudo na pior e eu só sei dizer
TUDO BEM,
e quando as cachaças as cervejas as companhias
me embebedam,
eu nunca sei o que será de mim.
jamais me contento,
mas eu engulo sempre o pão que o diabo amassou,
as dores dos cornos,
as glórias dos babacas,
os uísques nacionais dos bundamoles
e o samba-canção dos machos sem tesão.
eu vivo mais cheio que o saco das garçonetes
nas sextas e nos sábados.
por muitos caminhos perdi meu rumo
e não gosto dessa espera.
se algum dia alguém me perguntar
se fui eu quem escrevi estas coisas,
negarei três vezes.
mas a chave do céu das palavras
eu tenho
e sobre elas edificarei
as garrafas e as mesas



(do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
- Juareiz Correya,
Nordestal Editora, Recife,PE, 1982)


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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20
- Juareiz Correya,
Panamérica Nordestal Editora, Recife, PE, 2010)

domingo, 6 de fevereiro de 2011

SEM TÍTULO, 4 ("como uma coisa odiosa...")




como uma coisa odiosa te deixarei murchar à margem
da memória que me cobre os dias, sem uma sombra
onde guardar teu nome. eu sou o mesmo e me diviso
onde divido a história que nos espelha.

amamos, e de tudo sobram restos de viver confundidos
nos rostos que ostentamos com máscaras rotas.
os amantes aprendem a silenciar também.

tu és agora um bicho vulgar que não acentua
a mímica mais fácil de conduta animal.
e eu que amante sorri com as alegrias

de descobrir as tuas descobertas e plasmar
teus desejos na substância dos meus,
reconheço, sem riso, com palavras ásperas,
que sou capaz de te odiar também.




(do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA,
de Juareiz Corerya -
Nordestal Editora, Recife,PE,1982)


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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20,
de Juareiz Correya
- Panamérica Nordestal, Recife, PE, 2010

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Palmares realiza "Encontro Literário da Mata Sul" em setembro

Palestras, debates, lançamentos, feira de livros, recital de poesia, música e artes plásticas fazem parte da programação do "1o. ENCONTRO LITERÁRIO DA MATA SUL DE PERNAMBUCO", a ser realizado em Palmares, de 15 a 18 de setembro deste ano. Edições e reedições de livros de Hermilo Borba Filho (Palmares), Aristóteles Soares (Catende), Waldemar Lopes (Quipapá), Nelson Chaves (Água Preta), escritores já falecidos e consagrados no Estado, serão lançadas e destacadas durante todo o Encontro. Autores novos, inéditos e publicados, da região, terão também os seus trabalhos lançados no evento, que promoverá, da quinta-feira (15) ao domingo (18), uma movimentada feira de livros no centro da cidade.

Com a coordenação geral dos escritores Juareiz Correya (Panamérica Nordestal Editora) e Alexandre Santos (União Brasileira de Escritores - Seção de Pernambuco), o ENCONTRO LITERÁRIO DA MATA SUL DE PERNAMBUCO , iniciado em Palmares, neste ano de 2011, será realizado, a cada ano seguinte, em um novo município destacado da região.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Sem Título ("a mulher agora é terrível")





a mulher agora é terrível
é terrível e esta palavra é pouca,
eu não sei como abarcar a grandeza
da miséria a que ela nos condena.
e antes,
e cedo mesmo quando esteve comigo
companheira e amiga
sua dor e sua solidão me cativaram
pelos dias em que historiamos a nossa sorte
vagos e plenos, em nós o universo.
eu quis lhe dar e lhe dei
os meus alvoroços e a minha calma
e o gosto que eu sempre tive
de me dizer seu.
ela me acolheu e me disse generosa
que me recebia e me queria
com a certeza de quem ia me receber
e me querer muito mais.
agora, o tempo não é de alegria
nem festa alguma existe em nossa volta
ou nos encontros que forçam os nossos passos.
existe em mim
uma dor e uma solidão que eu nunca tive
e a desgraça de vê-la terrível
como eu nunca vi.



(do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA,
de Juareiz Correya
- Nordestal Editora, Recife, 1982)


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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, de Juareiz Correya
- Panamérica Nordestal Editora, Recife,Pe, 2010

sábado, 15 de janeiro de 2011

(SEM TÍTULO, 2) "dói em mim uma dor danada..."




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dói em mim uma dor danada
que eu não quero ter e que não recuso.
um gesto que eu não conheço me condena,
a voz transborda iras e terrores.
a mulher que eu amei é logo desamada
num abandono cego e pessimista.
amanhã eu não sei o que dizer do amor
para que não seja apenas uma palavra.
meus sentimentos se perdem e se confundem
e eu me esqueço de mim,
falho nos sonhos erro nas esperanças
passo batido e retardatário
no ciclo dos dias, me sinto sem forças
para conduzir meu próprio fardo.
que olhos brilharei para a mulher que amo
quando ela aparecer cansada e triste ?
dói em mim uma dor danada
que eu não quero ter por que repartir
com essa companheira
sofrida em meus caminhos
inútil e vaga em sua sorte
que eu não quero ter e que não recuso.



(do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA,
de Juareiz Correya -
Nordestal Editora, Recife, PE, 1982)


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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, de Juareiz Correya
- Panamérica Nordestal Editora, Recife,PE, 2010.

domingo, 9 de janeiro de 2011

(SEM TÍTULO)



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estou triste porque não disse do amor
alegres palavras que alvoroçassem teu sangue
e te perdessem em nosso encontro.
estou triste e inútil, cansado pelas ruas
e becos e praças e grotas e grutas
deste lugar que enfeitei contigo
para te inaugurar e te fazer morada.
é uma tristeza sem álcool nos olhos
e sem olheiras, sem amargor e sem derrota
tristeza triste
contra a alegria de te ver.
serena em mim um rebanho de temores
pastando nesta noite de distâncias.
ninguém nos vê,nem sabe do nosso desamparo
e do carinho que não tratamos
quando estivemos juntos.
ninguém vê que não nos vemos
e que não sabemos de nada do que dissemos
e que não fazemos o que queremos.
esta tristeza cresce e me espanta
se estendendo sobre pontes e rios
como se pudesse te encontrar
e, onde estás, enterrar teu rosto em sombras
e teu coração em apertos


(do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA,
de Juareiz Correya, Nordestal Editora, Recife, 1982)


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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, de Juareiz Correya
- Panamérica Nordestal Editora, Recife, PE, 2010