domingo, 13 de março de 2011

OS HOMENS, PEQUENOS POETAS





Não leio os que se dizem grandes poetas.
Eles arvoram-se e edificam-se
em suas moradas de sombras
e vocabulares constelações.
Criam distâncias intangíveis
e com apodrecido sangue zumbi
amortecem e anulam a emoção
enfiam no rabo os instintos
castram todos os sentidos
e envilecem os sentimentos.
Sim : mentem e bordam
fedem e pintam.
Do mundo onde estão
(que felizmente não é o nosso,
habitado apenas por um ou outro poeta
sem tamanho)
fingem que a humanidade existe
e cagam para ela somente obras-primas.
Deuses feios e famintos,
eles masturbam-se em sua própria glória
e negam a vida tantas vezes quanto for preciso
para que ninguém entre no Reino-dos-Seus.
Nunca viram o Inferno onde nós vivemos,
nem lavaram a mão com a nossa lama.
E nunca morreram, como tantas vezes renascemos.
Um dia
eles neutronizarão a terra inteira.
E, com a sua palavra cretina e luminosa,
num parto asséptico e sem dor,
inventarão os homens.



(do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA,
de Juareiz Correya
- Nordestal Editora, Recife, 1982)


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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20,
de Juareiz Correya´,
- Panamérica Nordestal Editora, Recife, 2010)


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