sábado, 31 de julho de 2010

MELHOR É AMAR




melhor que morrer é viver
cair no bar
virar a esquina
andar a pé
de mão em mão
de lotação
correr de trem
não sei aonde
ir de avião
chupar o caldo
beber a cana
ser sem vergonha
e ser bacana
se depender
da ocasião
ser um menino
que não se engana
que sonha muito
e cai na cama
vira Papa-Figo
de Bicho-Papão


melhor que morrer é viver
ter seu mistério
ter sua linha
crescer na conta
não na conduta
sofrer na rinha
da sua luta
sorrir na hora
dizer o nome
que quem é homem
não se consola
entrar de sola
ficar de frente
olho por olho
dente por dente
chegar mais cedo
ir logo embora


melhor que morrer é viver
ser singular
não diferente
não ser pessoa
ser mesmo é gente
correr jamais
não é preciso
não tem parada
tem é caminho
não há demência
há só juízo
pra ver o bem
se vê o mal
não vale ao mundo
saber profundo
vale no fundo
o essencial


MELHOR QUE MORRER É VIVER
MELHOR PRA VIVER É AMAR
QUEM VIVE PODE MORRER
QUEM AMA NÃO MORRERÁ



(do livreto O AMOR É UMA CANÇÃO PROIBIDA
- Juareiz Correya, Edições Pirata, Recife, 1979)



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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20
- Juareiz Correya, Panamérica Nordestal, Recife, 2010.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

PASSAGEM NA PONTE




estou aqui, no meio da ponte
no raio do dia (ou no açoite da noite)
no vão desta vida, no passo das águas
amanhecendo de tarde sem hora de amanhecer desperto
com a mesma sede afogada na garganta
despejando as enchentes da fala nos rios.
estou aqui, em cima da ponte
não sou boi nem voarei além do Equador,
não vou correr da polícia,
não tenho argumentos nem malícia,
não vou pular frevo ou maracatu,
não sou punguista nem sou camelô.
dentro da ponte é onde estou
e não me interessa se você para ou passa
se você pensa qualquer coisa ou se acha graça
e desconversa direto antes de chegar na esquina.
não me interessa se você é macho ou fêmea.
não me interessa a roupa que você veste,
se você não tem dinheiro no bolso ou no banco
ou se investe porrilhões e tantos na Bolsa de Valores.
interessa é que eu estou aqui
na ponte,
sem pregão, sem comício,
sem liquidação, sem manifesto, sem saber direito
como lhes falar de encontros e entregas e dores
e vocês têm uma pressa infernal que atrapalha
com os instantes contados num sistema canalha,
dando graças pelo seguro de todos os dias,
estúpida promessa,
para que os porcos não lhes cortem as cabeças.
vocês têm famílias, posses e silêncios horríveis
para cultivar e multiplicar a vida inteira
(e nada como palavras, que tão aéreas soam,
como as que eu te ofereço, irmão,
dispara jato mais veloz no sangue do coração).
vocês não ouvem nada, eu sei,
e nada têm para dizer também.
igualmente motorizados dentro da cidade das horas
vocês não dispõem de tempo,
vocês pensam que aceleram sua própria Sorte,
vocês sabem apenas que nós somos inúteis, jamais necessários.
no passeio da ponte sou eu quem falo
e aqui me acendo, me dou e me escangalho
aqui sou poeta, oferta, passagem.




(do folheto RECITY RECIFE - UM,
Edição Casa da Cultura / Governo de Pernambuco,
Recife, 1976)


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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, Juareiz Correya
- Panamérica Nordestal Editora, Recife, 2010)