domingo, 23 de outubro de 2011

PORRE CERTO

Os olhos do poeta me investigam acima de qualquer suspeita.
São olhos fogo aceso fogo morto
os ombros magros e firmes suportam o meu peso
e de todos os homens do bar das ruas das famílias
do meretrício da igreja da prefeitura
eu falo mas eu gostaria de saber o que ele deseja
que eu lhe diga realmente.
Suas mãos afiladas movem-se
na mesma cadência dos cubos de rumgelo tilim tilim
no copo, o poeta estende-se na minha frente
como um campo largo e canta o hino nacional
com um sorriso falso,
o poeta tem no rosto um céu limpo e me diz :
todos estes anos não escondem um país de merda,
o balcão do bar é de merda,
as mesas do bar são de merda,
os homens fedem as ruas fedem
as casas os cinemas as intenções fedem
e eu sou um rato miserável porque não sei gritar
até me arrancarem os pulmões.
Alguém passa assoviando o poeta se afoga
no copo de rum olhos fogo aceso fogo morto
mãos afiladas o tronco as pernas os braços estouram-lhe
e o poeta angustiado derruba as paredes do bar,
agita o teto do bar para o alto,
eu espero um dia alguém se aproximar e dizer,
você é poeta ?
quem foi que te disse que você é poeta ?
que autoridade te reconheceu e te permitiu ser poeta ?
a que sociedade você pertence ?
e o poeta não sabe que os poetas são presos
e espancados e seviciados e mortos neste lugar inocente.
Nem sabe que é mais indesejável que um ladrão vulgar.
Nem sabe que preparam a sua derrota
em uma folha de papel timbrado do Governo.
Cogumelos gigantes levantam-se dos seus sapatos
e a multidão de medíocres não sabe
escolher uma admiração
com os aplausos preparados
para um palhaço sem tomate no nariz
de gravata, estampa brihante na televisão.
Nem é preciso contar a história,
as histórias dos jogadores de futebol
que são heróis no meu país alegre,
por um gol se faz um herói no meu país alegre !
e aqui o poeta espreme um pouco de angústia
entre cubos de gelo e se afoga em rum falso
sem hino nacional para alegrar as noites do meretrício
da igreja quando as casas e os cinemas fecham
e os homens fedem



(do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
- Nordestal Editora, Recife, PE, 1982)



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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, de Juareiz Correya
- Panamérica Nordestal Editora, Recife, PE, 2010.

domingo, 2 de outubro de 2011

SUFOCO NOSSO DE CADA DIA




tento obedecer as normas deste crime
estou falando como eu sei
é tão certa a distância
que nos desorienta
na correria da solidão


eu comigo cheio de mim esborrando-me
diante de bocas murchas e corações desertos
tanto me procuro e de mim só encontro
um resto de humanas perdições
- um rosto de insanas feições
com a bandeira deste amor que não compreendem
dou bobeira e todos sabem por onde passo
do meu carnaval sem época
da minha nudez sem trégua
e das danações que me assanham
e me conduzem aos cadafalsos dos dias
e aos fuzis dos que se escondem nas caras
caladas culpas forjadas na pele do medo
e enterram nos ossos o estampido da voz



(do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA, Recife, PE, 1982)


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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, de Juareiz Correya
- Panamérica Nordestal Editora, Recife, PE, 2010