domingo, 20 de novembro de 2011

POEMA NÚMERO ZERO



Não acontece nada.
Não está acontecendo nada.
QUE IMPORTÂNCIA TEM A MINHA POESIA ?
Não tem nenhuma importância.
E eu escrevo e eu escrevo e eu escrevo sem parar
para essa tua indiferença rotulada na carteira de identidade,
eu escrevo canções que não serão cantadas
jamais pelos homens,
eu escrevo poemas sem significado para o teu peito
amigo,
preencho com clareza os meus próprios atestados de óbitos
e vocês sabem que mutilam-me os membros equestres
com a sua condição miserável espalhando horrores no meu cérebro,
e vocês não dizem nada e vocês sequer
dão-me uma palavra pouca em troca destes cadáveres.
Mesmo que eu não escrevesse este poema
o presidente dos Estados Unidos e seus criminosos
matariam com inteligente raciocínio
mesmo que eu não escrevesse este poema
o papa Paulo Sexto no Vaticano reclamaria com veemência
porque não pode roubar os jovens de hoje
mesmo que eu não escrevesse este poema
Moscou enterraria com regularidade os seus artistas
em mostruosos sanatórios para doentes mentais
mesmo que eu não escrevesse este poema
as guerras comercialmente se embebedariam
com os excrementos atômicos
mesmo que eu não escrevesse este poema
a fome no coração do Nordeste brasileiro
roncaria o seu barulho dantesco
mesmo que eu não escrevesse este poema
as crianças de todos os países
acordariam normalmente assustadas
mesmo que eu não escrevesse este poema
a tua indiferença, meu amigo, estaria friamente
preparada para enfrentar a angústia do mundo
mesmo que eu não escrevesse este poema
a tua vida começaria as 7 da manhã com intervalo para o almoço despedida do relógio do ponto as 6 horas da tarde & um programa de televisão depois do jantar ou um filme muito badalado na cidade consequentemente volta para casa no mundo fechado do teu automóvel superconfortavel & o resto da noite na cama com a tua
burguesinha
pois os bêbedos e os loucos e os intranquilos
só existem nas esquinas podres
e na boca de lixo deste poema
P O R R A !
mesmo que eu não escrevesse este poema
todas as mulheres e todas as meninas não saberiam
estupidamente que existe um deus nas ruas
um deus desesperado com a sua boca sensual
vomitando poemas fálicos um deus imenso
com a sua carne ardendo êxtases agônicos


se eu não escrevesse este poema não aconteceria
nada, nada nada simplesmente nada
mas eu enfrento tudo
& não preciso de imagens & de safadeza literária
& de metáforas
não preciso de outra coisa além do meu sangue rubro
não preciso de nada além da minha loucura onírica
de nada além da minha caótica presença



São Paulo, 1974.


(do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA,
Nordestal Editora, Recife, PE, 1982)


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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, de Juareiz Correya
- Panamérica Nordestal, Recife, PE, 2010

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