sábado, 28 de março de 2015

"RETRATO 3 X 4 DE JUAREIZ CORREYA" (2) - Texto de Jaci Bezerra






     "Juareiz Correya, dizia eu, é uma pessoa feita de excessos. Mas não dos excessos que ofendem as pessoas e minimizam a vida. Ao contrário, ele parece-me excessivo, despudoradamente excessivo nos seus gestos e atitudes, porque ama despudoradamente a vida. E esse amor e despudor que, por vezes, parece ofender, não importam as razões alegadas, o senso de decência das pessoas, consequências de uma liberdade rara, arduamente conquistada e facilmente constatável, é o que torna incendiariamente viva a sua poesia. Ao escrever, Juareiz dispensa os veludos e as filigranas da moda, e é o mesmo Juareiz rútilo de vida que estamos acostumados a ver e ouvir : o  que se abre em risos, o que convive com os sonhos, o que não aceita imposições, o que ama e estuda os poetas populares, o que publicou Ascenso, o que distante dos deuses e dos valores da nossa época está sempre nas ruas e nas esquinas ao lado dos homens.  Sabe, porém, que "a rua é pouca para o meu corpo, a rua a rua."  Mas ainda assim não hesita em dividir os seus sonhos : "subam em mim com ritmos de frevos loucos / eu me reparto com vocês tomem / e a cidade inteiranormal não tem espaço /  para o meu corpo colorido o meu corpo colorido / o meu corpo colorido cobre a cidade como um véu / estraçalhado de luzes e batuques / e batuques / cantem, rasguem as gargantas / eu cresço / mastigo os ares como uma granada / multiplangente me afogo no meu suor / bêbedo, com estrelas / e planetas nos bolsos." 

     

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Fragmento do posfácio de AMERICANTO AMAR AMÉRICA 
- Nordestal Editora, Recife, PE, 1982  / 
Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA 
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, de Juareiz Correya  
(Panamerica Nordestal Editora, Recife, PE, 2010)  




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