quinta-feira, 28 de agosto de 2014

UM DOIDO E A MALDIÇÃO DA LUCIDEZ, de Hermilo Borba Filho





     "O poeta é um ser que vive permanentemente em estado de sofrimento por si mesmo e pelo mundo que o rodeia. Quando o mundo atinge a sua zona mais alta de tortura, tanto no estado da lucidez como no das intuições (quase sempre mais válidas), o poeta se contorce como uma salamandra no fogo e canta tragicamente.  Por ser mais agudo e perspicaz que as pessoas que o cercam vê tudo mais além, exacerbadamente, desejando o que não pode e fazendo o que segundo os bons costumes não deveria fazer.  

     Juareiz Correya é um desses seres e este seu pequeno livro de agora diz, fotograficamente, com muita precisão, o que está acontecendo com ele : o poeta está triste e pessimista. Nenhuma esperança em suas palavras. Ele quer chorar e é um direito seu. Mas tenho cá comigo que devemos crer mesmo contra a esperança e é o que aconselharia se me atrevesse a dar conselhos : olhar em volta mais acuradamente, com esse olhar de gavião que os poetas têm mesmo quando se fingem de mortos, e ver que há coisas mais importantes para se cuidar além da própria dor, a começar pelo homem, indigente e desamparado.  

     Abro o seu livro e leio logo : Eu acho que nada mais resta / a minha carne é para os cães deste século; vou adiante e vejo : Nem interessa mais figurar minha fantasia de mim ; e continuo : De que me serve este amor / como uma chaga aberto ?; e vai : O que tens, poeta, é bem pouco; desilude-se : Tu és a mesma, longa, louca, luxenta, besta ; e finalmente uma esperança, talvez a única : A luz que me nasce fecunda a aurora ; mas perde-a : Eu não sei onde estou & não sei aonde vou ; e seus dois últimos versos são : eu escrevo como quem pratica crimes perfeitos / sem paz e alegria para esta descoberta inesperada.

     Este poeta pessimista  é um jovem de quem os jovens (e também os velhos como eu) muito esperam no colorido campo da esperança : resta que ele saia do pesadelo."   


(JORNAL DA CIDADE, Recife, PE, 1975)


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Publicado no livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA,
de Juareiz Correya ( Nordestal Editora, Recife,PE, 1982 / 
Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA 
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, 
de Juareiz Correya (Panamerica Nordestal Editora, 
Recfe, PE, 2010) 

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