terça-feira, 14 de agosto de 2012

A REVOLTA DOS PÁSSAROS FERIDOS




"É honra do homem proteger o que cresce 
cuidar para que não haja infância dispersa pelas ruas 
de outro modo é inútil ensaiar na terra 
a alegria e o canto..."
                          (ARMANDO TEJADA GOMEZ)



A esta hora exatamente
há uma criança na rua.
E despertamos para o nosso dia
de compromissos, de créditos e compras,
com a consciência sã e salva,
passada a limpo em águas biodegradáveis,
sem a estúpida lembrança dessa imagem.

A esta hora exatamente 
há muitas crianças despertando 
com o molambo e o desabrigo das ruas.
E vestimos os azuis e vermelhos 
convencionais, roubados ao céu e ao sol,
para os encontros das invenções
estabelecidas em favor de todos nós
- uma comunidade de homens ideais 
sem pensar que há manhãs de fome 
nas mãos de crianças sacrificadas.  

A esta hora exatamente
há dezenas de crianças em cada rua
prontas para uma luta cega e crua 
em troca de um humilhado pedaço de pão.
E comemos à nossa mesa os naturais 
frutos do mercado a saudável
gordura dos animais as proteínas 
e as vitaminas de quentes cereais. 
E não sabemos que a fome existe 
em estômagos que ainda estão nascendo,
em corpos que ainda estão crescendo. 

A esta hora exatamente
há centenas de crianças nas ruas 
dos bairros descalços e imundos 
tomados de assalto pela miséria.  
E administramos a nossa segurança 
e a nossa sorte, construindo
um cotidiano de ações justificadas 
para nós mesmos, a família unida,
para o nosso completo e indivisível bem.
E não vemos que pais e mães destroem 
e matam as crianças e as juventudes 
dos futuros que passam em nossas portas.

A esta hora exatamente
há milhares de crianças nas ruas 
com as suas inocências roubadas 
e assassinadas pela cidade inteira.
E em nossas casas preparamos 
a fortaleza do nosso medo,
em nossas casas seguros negamos 
com a Família, a Constituição e o Governo,
o abandono, a fome, a miséria absoluta,
desse Exército que cresce todos os dias
para invadir em revolta o infame País 
e com as mãos pequenas e limpas 
acabar com a sujeira e o crime 
de todas as nossas vidas inúteis.  


                                    Recife, 26/maio/1989.


(do livreto AMÉRICA INDIGNADA 
Y POEMAS DA ALEGRIA DA VIDA,
Recife, PE, 1991)


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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA 
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, de Juareiz Correya
- Panamerica Nordestal Editora, Recife, PE, 2010

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