sábado, 11 de setembro de 2010

OUTRO POEMA DE CIRCUNSTÂNCIA




meus pulmões transbordam-me pela boca
de granito automóveis & metálicos minotauros
vagos como balões de espuma
na Praça da República
gritos & estupros entram pelos meus ouvidos
& a orquestra é uma tarde fixa
quente, quente, mais quente e atordoante
que o teu orgasmo.
parar, parar assim como um idiota
parado entre tantos animais feridos que correm
para me pisar com os seus cascos de nailon,
parar estupidamente & expor-me as vísceras
para que os pássaros condenados cantem berros de vitórias
nos seus carnavais criminosos ?
parar assim como uma pedra uma bala uma vítima ?
parar assim como quem perde as pernas durante o vôo
& estender a cara sobre a cidade
& estender langores & delírios para as tuas correrias,
para os teus sentimentos automáticos & cronometrados,
para as tuas sensações censuradas & computadas,
& ser um pouco matéria lubrificante óleo
para os corações dos robôs nas peças dos homens ?
eu quero beijar o sexo verde
da menina que passa agora de vestido vermelho
pegada na mão de um homem que é talvez seu pai,
beijar-lhe o sexo impúbere todo todo avidamente beber
os suores dela como quem bebe licores
de cálice desfolhado.
As jovens burguesas desfilam
sua fétida sua odiosa beleza
vestida pelas agências de publicidade
& colorem a própria vaidade com a merda estrangeira
& riem alegremente, os corpos crivados
com as facas do seu engano trágico eu grito
& incendeio a avenida caminhando para dentro do meu peito
com os seus pederastas fanáticos
& as suas putas heróicas
& as suas meretrizes oficiais
bêbedos de guerras multisexuais
& os seus gritos de sanguebrancogeladonasveias
minha loucura copula em reuniões sagradas
publicamente
com as mulheres de bronze da Praça da República
& do Largo do Arouche
eu fodo com as mulheres de bronze
de todas as praças & de todos os jardins públicos,
& os meus olhos fálicos
inundam os sonhos de todas as meninas soltas,
eu sou um monstro & contemplo os teus rostos
& corto as tuas cabeças
para enfeitar estes lugares estripados
pelo sol



(do livreto O AMOR É UMA CANÇÃO PROIBIDA,
Juareiz Correya - Edições Pirata, Recife, 1979)


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Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA
E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, Juareiz Correya
- Panamérica Nordestal Editora, Recife, 2010

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