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OFÍCIO DOS OSSOS (para Juareiz Correya)

O que tens, poeta, é bem pouco ou muito ou nada ou o que seja serve para tua mitologia, sem sentidos tens os pés e a hora do poema cheia, uma enchente pelas ruas da cidade que significas. Tens o prato; e a prata ? tens a prata, uma pata medonha que te esmurra de passagem no meio do povo, de novo, todos querem ver o tabefe te cobrindo o rosto, a rubra vergonha que não tens e te roubas, tentando palhacear, tentando palha cear teu prato direto estômago chato esta vida não te dá enjoos ? Poeta, o que tens não representará nunca teu minuto de sorte contado teu tempo escalas escadas e te calas ? tu falas safado, teu feijão é muito (suficiente para qualquer um) desnecessário para teu apetite, tua ração faz falta aos porcos. O que tens poeta não mereces e se recebes um cruzeiro por igual valor envergonhas o câmbio. O que tens poeta é o que te cabe e não serviria mesmo para ninguém mais. O que tens, excedência dos outros, existe apenas para teu desassos...

CANÇÃO DE QUEM SE FAZ AMANTE

De que me serve este amor como uma chaga aberto ? Na cidade de criaturas vazias perdi a noção de mim enegreci o cheiro do meu calor enterrei o meu sexo num buraco de excrementos sem raízes. De que serve tudo isto & a beleza que eu carrego & as minhas palavras sinceras & a luxúria dos meus gestos expostos ? Caminho apenas para evitar esses desencontros que se forjam a minha espera em cada esquina & se metem casa a dentro pregados na minha roupa & pulando rutilantes na máquina. Vou não sei por que abraçar a madrugada pois as desesperanças me sacodem por dentro como uma bolsa em que coração & músculos sem peso estiram-se & vibram num orgasmo masturbado. Amar é apenas uma expressão vaga na boca de quem me ouve. Minhas correrias pelas ruas caladas são buscas inúteis & eu me ofereço eu me ofereço amigo & quente tenho a carne toda para repartir em cada instante & por mil atos multiplicarei os meus pedaços. Eu quero ...

RECITAL (1 : Um)

nem interessa mais figurar minha fantasia de mim. eu sou sem retoques, sem adornos e bilheterias para o espetáculo estas poucas coisas que me desacertam e harmonizam meu sangue com bombas no coração do mundo. me vejo pior a cada dia separado dos outros por isto que lhes dedico. desejo apenas compor com todos uma alegria que sequestre todos os temores e uma entrega que não nos devolva a este tempo jamais. gritar nas ruas as novas promessas da gente, dizer um manifesto que revolucione e anule a ordem que vocês estabeleceram para calar suas vidas. para esse carnaval eu não escondo nada, não subtraio minhas energias nem evito qualquer janeiro para esse carnaval eu vou invadir as ruas ser a pele dos batuques o pano da troça o sexo da folia desembestando multidões no pulo dos passos bebedo de cantar ________________________________ (Do folheto UM DOIDO E A MALDIÇÃO DA LUCIDEZ, Palmares, PE, 1975)

"Eu acho que nada mais resta..."

Eu acho que nada mais resta a minha carne é para os cães deste século para os pósteros eu testemunho a loucura com as legiões de jovens famélicas pelas próprias vidas devoradas nos seus corações sem sombras para os pósteros eu só asseguro o direito aos meus ossos podres carniça odiosa que restarei ___________________________________ Do folheto UM DOIDO E A MALDIÇÃO DA LUCIDEZ, edição do autor, Palmares, PE, 1975.

UMA FAZENDA NO EDEN ?

para Marconi Notaro segurar esses bodes numa barra que não seja fácil nem nada ouvindo berros sossegos gatos pintados de tarde entre juremas & séculos ou vendo nos pés coqueiros com sexos de manhãs segurar esses bodes guiados de qualquer bar em nossas taças de mão em nossos copos leitosos bebido néctar de cores ou sangue de água & lodo mergulham em nossas gargantas longas peles de montanhas segurar todos os bodes no tanque das nossas bocas em nossa cria de sonhos amamentar todo mundo todos os bodes nos nascem na ponta de qualquer dedo & nestes sorrisos soltos cultivamos rebanhos pelas mesas citadinas onde sabemos de tetas que não se apagam madrugadas sem cerca & vegetação nossos bodes amadurecem vomitados com o chão. ________________________________ (do livreto AMERICANTO AMAR AMÉRICA & OUTROS POEMAS, Nordestal Editora, Recife, 1975)

CANÇÃO PARA MENINAS

desejo teus passos calcando chamados nas rodas da rua, nos vãos desta casa eu ouço teus passos me iludo & embaraço tuas sombras a minha eu quero teus risos nas vagas calçadas teus risos por perto tangendo mentiras de vocábulos inventados para os teus agrados me embriago em luzes dos teus olhos distantes em fogo aproximarei as mãos dos teus traços corpos ninféteis povoando meu sangue de correrias exponho a cara para o incesto maravilhado em tuas carnes tenras semi-fêmeas quase-mulheres que deliram meu sexo em horas sem métrica, quase-mulheres estandartes de gozo eu abrirei larga boca para os teus suores para os teus cheiros eu oferendo sede eterna de lábios que se aguçarão derramados na ânsia de beber teus centímetros em pedaços & alvoroçarem tuas inocências tuas ternuras guardadas, teus sexos verdes eu alcançarei teus espantos com alegria descobrirei tuas descobertas em mim amanhecendo ________________________________________ (do livreto AMERICANTO A...

POEMA PARA LÉA (*)

quando a gente ama não reclama da cama do berço dos braços do suor em bagaços deitado em cima da gente quando a gente ama a gente se sente demente & se faz descrente do mundo inteiro quando a gente ama dançam na gente garras de chama & a boca gemente de gozar se derrama na gente-semente na gente somente quando a gente ama (do livreto AMERICANTO AMAR AMÉRICA & OUTROS POEMAS, Nordestal Editora, Recife, 1975) ________________________________ (*) Canção do compositor Paulo Diniz, interpretada por ele, com arranjos de João Donato, no elepê "Estradas" (Emi- Odeon, Rio, 1977), e por Wanderléa, com arranjos de Egberto Gismonti, no elepê "Vamos que eu já vou (Emi- Odeon, Rio, 1977). Regravada por Paulo Diniz no CD "Reviravolta" (Produção Independente, Recife, 2003).