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A NOVA POSE DE REAGAN

Mais uma vez te apossas da América. Mais uma vez te transformas em Águia sanguinária do Ocidente, tu, Ronald Reagan, que em toda a tua vida não passaste nunca de um caubói de segunda categoria. Hoje, novamente conduzido pelas mãos cegas dos teus eleitores, imundos racistas imperialistas, tu projetas o sonho americano do reino soberano dos Estados Unidos sobre toda a Terra. De fato, reinarás, porque a América mais uma vez estremece inteira. As nações de todo o mundo estremecem porque tu tens o Poder de possui-lo. Mas alguma coisa está mudando em ti, e em teu glorioso Poder. Distante do mundo e dos homens que em nome do teu povo assassinas e silencias, tu ensaias a nova posse, fazendo a pose de uma cerimônia circense, e te armas com foguetes anti-mísseis, batalhões de soldados contra-terroristas, além da super-proteção de muralha à prova de bala, colete de cristal e limusine blindada. Tu não és apenas o velho caubói que volta a possuir a Am...

LOUVOR À VIDA E REPÚDIO Á MORTE DE ERNESTO CARDENAL

O envio de uma frota naval norte-americana a águas centro-americanas "é uma bofetada no libertador Simon Bolívar", afirmou o ministro da Cultura, da Junta Sandinista, Ernesto Cardenal. (DIARIO DE PERNAMBUCO, Recife, 24/07/83) Ernesto Cardenal, irmão necessário da nossa América sonhada. Teus poemas continentais foram ouvidos por Deus. Teus poemas escritos com sangue, sob forjadas cadeias e o fogo dos canhões salmos de verdade e amor cantados pela liberdade do teu povo e pelo júbilo de tua terra, arruinaram o trono do ditador Somoza e deram-lhe fim mais mortal do que as metralhadoras e as bazucas benditas da Revolução. Ernesto Cardenal, irmão revolucionário da nossa América vilipendiada. Com o teu coração cultivaste a esperança dos homens e das mulheres e das crianças renascidos na tua pequena Nicarágua, com novo sol, nova luta, novas armas, novo ardor, reconstruindo a pátria legitimada pela inteira libertação. Ernesto Cardenal, irmão l...

DISCURSO POÉTICO

"todo poeta é um subversivo" (Juareiz Correya) subverto as manhãs com esta violência de tardes e noites inconsequentes escangalhando o dia sem contar as horas faço o tempo pelos ponteiros que perdi e instituo o levante da minha decadência não troco a língua nem vendo o nome decretando entregas e condenando recusas estandarte de ilusões rasgadas não canto hinos com estribilhos de amor por viver inseguro do tamanho de uma pátria eu me limito à nação que me chamo e a cada instante república nova proclamo contra o império da dor e do abandono anistio vencedores elejo quem se derrota livro prisões dos horrores dos homens marcha nas ruas o exército da minha desordem e eu abro portas com as mãos do regresso (Do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA - Nordestal Editora, Recife, PE, 1982) ___________________________________________ Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, de Juareiz Correya - Panamérica Nordestal...

POEMA DE CIRCUNSTÂNCIA

não tenho tempo de escrever este poema sábado roto, embora cheio de sol, esta cidade puta não oferece perspectivas para que eu ame uma mulher de verdade a qualquer hora este poema tem o suicídio de um general & guerra religiosa nas ruas de Belfast por que vocês não matam logo o presidente dos Estados Unidos ? & uma avalanche assassina com 60 mortos a domicílio este poema sem tempo parido nos meus & nos teus hábitos cobrados à força no pedágio tem desastres mirabolantes tão simples & o cheiro de peixes fritos & disparadas músicas no teu quarto, burguesinha. VIA TELEX ESCREVO ESTE POEMA NÃO HÁ MAIS TEMPO DE ESCREVER ESTE POEMA MAS EU NÃO POSSO ESQUECER QUE MILHARES DE PESSOAS ESTÃO MORRENDO AGORA QUE A SOLIDÃO COME OS HOMENS EM PRATOS SUJOS E SABOREIA AS SUAS DORES COM UISQUE SAFADO QUE O AMOR EH UMA BOSTA DE PECADO EM TODAS AS CABEÇAS QUE NÃO HÁ HOMENS E MULHERES SE AMANDO NAS PRAÇAS NOS ÔNIBUS NOS TRENS ELÉTRICOS NAS CALÇADAS DO ...

POEMA NÚMERO ZERO

Não acontece nada. Não está acontecendo nada. QUE IMPORTÂNCIA TEM A MINHA POESIA ? Não tem nenhuma importância. E eu escrevo e eu escrevo e eu escrevo sem parar para essa tua indiferença rotulada na carteira de identidade, eu escrevo canções que não serão cantadas jamais pelos homens, eu escrevo poemas sem significado para o teu peito amigo, preencho com clareza os meus próprios atestados de óbitos e vocês sabem que mutilam-me os membros equestres com a sua condição miserável espalhando horrores no meu cérebro, e vocês não dizem nada e vocês sequer dão-me uma palavra pouca em troca destes cadáveres. Mesmo que eu não escrevesse este poema o presidente dos Estados Unidos e seus criminosos matariam com inteligente raciocínio mesmo que eu não escrevesse este poema o papa Paulo Sexto no Vaticano reclamaria com veemência porque não pode roubar os jovens de hoje mesmo que eu não escrevesse este poema Moscou enterraria com regularidade os seus artistas em mos...

PÁSSARO PINTADO

"Por um instante a surpresa tolhia os pássaros. A mancha colorida voava em meio ao bando, tentando convencê-los de que lhes pertencia. Mas, confundidos pela plumagem brihante, os outros o rodeavam incrédulos e quanto mais o passáro pintado tentava incorporar-se ao bando, mais o rejeitavam. Logo, um depois outro, começavam a atacá-lo, arrancando-lhe as penas multicores, até fazer-lhe perder as forças, precipitando-o ao chão." (JERZI KOSINSKI) Vou andar por aí em nome dos homens. Sujeito da vida a qualquer mudança estarei com os meus, iguais semelhantes, na rota dos passos,de aérea esperança, aérea,pois não. E direi que sou o meu próprio nome -identificado homem, para vivermos juntos a mesma humanidade. NÃO IMPORTA COMO NÃO IMPORTA VG sim a humana identidade. Mesmo que eu lhes pareça espantalho, que não copie a sua moda, nem altere a multidão dos que estão na fila conjugando o tema do dia do sistema. Mesmo que a minha voz palavre o nosso sangue e e...

PORRE CERTO

Os olhos do poeta me investigam acima de qualquer suspeita. São olhos fogo aceso fogo morto os ombros magros e firmes suportam o meu peso e de todos os homens do bar das ruas das famílias do meretrício da igreja da prefeitura eu falo mas eu gostaria de saber o que ele deseja que eu lhe diga realmente. Suas mãos afiladas movem-se na mesma cadência dos cubos de rumgelo tilim tilim no copo, o poeta estende-se na minha frente como um campo largo e canta o hino nacional com um sorriso falso, o poeta tem no rosto um céu limpo e me diz : todos estes anos não escondem um país de merda, o balcão do bar é de merda, as mesas do bar são de merda, os homens fedem as ruas fedem as casas os cinemas as intenções fedem e eu sou um rato miserável porque não sei gritar até me arrancarem os pulmões. Alguém passa assoviando o poeta se afoga no copo de rum olhos fogo aceso fogo morto mãos afiladas o tronco as pernas os braços estouram-lhe e o poeta angustiado derruba as pare...