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POEMA NÚMERO ZERO

Não acontece nada. Não está acontecendo nada. QUE IMPORTÂNCIA TEM A MINHA POESIA ? Não tem nenhuma importância. E eu escrevo e eu escrevo e eu escrevo sem parar para essa tua indiferença rotulada na carteira de identidade, eu escrevo canções que não serão cantadas jamais pelos homens, eu escrevo poemas sem significado para o teu peito amigo, preencho com clareza os meus próprios atestados de óbitos e vocês sabem que mutilam-me os membros equestres com a sua condição miserável espalhando horrores no meu cérebro, e vocês não dizem nada e vocês sequer dão-me uma palavra pouca em troca destes cadáveres. Mesmo que eu não escrevesse este poema o presidente dos Estados Unidos e seus criminosos matariam com inteligente raciocínio mesmo que eu não escrevesse este poema o papa Paulo Sexto no Vaticano reclamaria com veemência porque não pode roubar os jovens de hoje mesmo que eu não escrevesse este poema Moscou enterraria com regularidade os seus artistas em mos...

PÁSSARO PINTADO

"Por um instante a surpresa tolhia os pássaros. A mancha colorida voava em meio ao bando, tentando convencê-los de que lhes pertencia. Mas, confundidos pela plumagem brihante, os outros o rodeavam incrédulos e quanto mais o passáro pintado tentava incorporar-se ao bando, mais o rejeitavam. Logo, um depois outro, começavam a atacá-lo, arrancando-lhe as penas multicores, até fazer-lhe perder as forças, precipitando-o ao chão." (JERZI KOSINSKI) Vou andar por aí em nome dos homens. Sujeito da vida a qualquer mudança estarei com os meus, iguais semelhantes, na rota dos passos,de aérea esperança, aérea,pois não. E direi que sou o meu próprio nome -identificado homem, para vivermos juntos a mesma humanidade. NÃO IMPORTA COMO NÃO IMPORTA VG sim a humana identidade. Mesmo que eu lhes pareça espantalho, que não copie a sua moda, nem altere a multidão dos que estão na fila conjugando o tema do dia do sistema. Mesmo que a minha voz palavre o nosso sangue e e...

PORRE CERTO

Os olhos do poeta me investigam acima de qualquer suspeita. São olhos fogo aceso fogo morto os ombros magros e firmes suportam o meu peso e de todos os homens do bar das ruas das famílias do meretrício da igreja da prefeitura eu falo mas eu gostaria de saber o que ele deseja que eu lhe diga realmente. Suas mãos afiladas movem-se na mesma cadência dos cubos de rumgelo tilim tilim no copo, o poeta estende-se na minha frente como um campo largo e canta o hino nacional com um sorriso falso, o poeta tem no rosto um céu limpo e me diz : todos estes anos não escondem um país de merda, o balcão do bar é de merda, as mesas do bar são de merda, os homens fedem as ruas fedem as casas os cinemas as intenções fedem e eu sou um rato miserável porque não sei gritar até me arrancarem os pulmões. Alguém passa assoviando o poeta se afoga no copo de rum olhos fogo aceso fogo morto mãos afiladas o tronco as pernas os braços estouram-lhe e o poeta angustiado derruba as pare...

SUFOCO NOSSO DE CADA DIA

tento obedecer as normas deste crime estou falando como eu sei é tão certa a distância que nos desorienta na correria da solidão eu comigo cheio de mim esborrando-me diante de bocas murchas e corações desertos tanto me procuro e de mim só encontro um resto de humanas perdições - um rosto de insanas feições com a bandeira deste amor que não compreendem dou bobeira e todos sabem por onde passo do meu carnaval sem época da minha nudez sem trégua e das danações que me assanham e me conduzem aos cadafalsos dos dias e aos fuzis dos que se escondem nas caras caladas culpas forjadas na pele do medo e enterram nos ossos o estampido da voz (do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA, Recife, PE, 1982) ___________________________________________ Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, de Juareiz Correya - Panamérica Nordestal Editora, Recife, PE, 2010

IRMÃIDADE

para o poeta Jorge Nascimento por saber quantas porradas percorremos traço metros de vida em teu redor redobro rotas em ensaios de campanhas que algumas vezes falaremos para os surdos de surpresa, quando eles todos esperam. seremos porraloucas parideiros danados como nos pedem os tropéis do sangue, a bebedeira que chove na gente, a gritaria do coração sem tripas e este amargo nos dentes, nosso próprio açúcar. que tal dançar para a puta que pariu ? sorrir larga boca para os babacas vitoriosos ? oferecer nossas bundas para os pontapés dos cus-sujos ? que tal a gente deleitar todo o teatro, e o Júri Oficial, e a Besta-Fera, e o Estopou-Calango, a Peste Bubônica, Calor-de-Figo e a Priquita do Mundo com o gosto da nossa carne ? (do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA - Nordestal Editora, Recife, PE, 1982) ______________________________________________ Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, de Juareiz Correya - Panameri...

ASCENSÃO DE RONALD REAGAN

Um homem velho está no Poder. Um homem velho como as pradarias do seu país Virou Águia E o sangue brilha nos seus olhos A partir de hoje. Hoje a América é posse De um homem velho. A América estremece inteira - treme até os cabelos do cu, possuída por esse homem velho. Recife, 20.01.81. (do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA - Nordestal Editora, Recife, 1982) ___________________________________________ Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, de Juareiz Correya - Panamerica Nordestal, Recife,PE, 2010.

POEMA IMBECIL

então os soldados fardados/armados e os (secretos) agentes da polícia federal no pastoril infantil prenderam as luminosas meninas do cordão encarnado (do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA - Nordestal Editora, Recife, PE, 1982) ___________________________________________ Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, de Juareiz Correya - Panamérica Nordestal, Recife, PE, 2010