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BILHETE BRASILEIRO PARA O AMERICANO

pega esta terra sem vergonha, Sam e come sua carne seu fruto doce e ela fica melhor com os teus dentes. ganha esta terra, sem vergonha Sam e fode sua gente besta indolente que ela vai sambar sem ligar pra vida. (do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA -Nordestal Editora, Recife, PE, 1982) ___________________________________________ Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, de Juareiz Correya - Panamérica Nordestal Editora, Recife, PE, 2011

DOM QUIXOTE DE CERVANTES

Diante do mundo, ferida tão aberta me faço poeta e vou espaceando aonde me esperam presidentes & Onus sitiadas & estrelas de cinema sem divórcio & putas brilhantes. Minha poesia raiojogada rebrilaser verbera assim eu combato no céu de chumbo as máquinas de todos os partidos & os robôs românticos lançando apelos, códigos ideológicos. Me faço poeta, astronauta para jogar sobre os continentes meu sorriso de luta. Minha poesia astrolírica fere & a sua fornalha nem consome as gerações inúteis, bêbedos senis comendo o seu pão de condição burguesa. Me faço poeta, poeta eu sou & me chamam louco. A minha loucura não lhes faz graça nem lhes mete medo. Poeta, ou esta mania de pássaro & fogo. Me faço poeta & as torrentes que eu carrego em cada palavra & a porra de tudo & tudo de todos & todos tudo em mim não vale nada para ninguém, estúpidos espectantes. Minha poesia é chama de papel higiênico, é um acidente em...

CANÇÃO PARA VICTOR JARA

"o canto tem sentido quando palpita nas veias de quem morrerá cantando as verdades verdadeiras" (VICTOR JARA) morrerei cantando, Victor Jara. depois dos dedos cortados as mãos sangrarão ritmos e cordas e a canção elevará minha voz. e me cortarão os pulsos e os tocos dos meus braços sem instrumentos sustentar rubros vão balançar sem minha canção parar. meus dentes serão quebrados na minha boca prensados na garganta atulhados no meu canto sufocado. meu rosto disforme de insultos virado na sanha dos brutos vai minha vontade cantando na cara do povo mostrar. além da loucura e dos urros da soldadesca assassina além de chutes e murros e da bala que elimina - nesta praça de esportes onde nos jogam com a morte - meu povo não calará, minha voz vai mais cantar, meu canto não morrerá. morrerei cantando, Victor Jara. (do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA, de Juareiz Correya - Nordestal Editora, Recife, PE, 1982) __________________...

DIA DE LUTA

há um clamor nas ruas uma passeata de vozes avança pela cidade - além do imposto medo sobre temas proibidos. há um clamor nas ruas crescendo por onde vou liberando no meu sangue o sentimento do mundo contra o sufoco gerado pelo sistema dos homens negando humanos direitos. há um clamor nas ruas pulsando na carne viva meu coração coletivo manifestante e vivo. há um clamor nas ruas sem domínio da cidade é urgente proclamar esse desejo que arde nos dias novos da gente - a mais viva liberdade. São Paulo, 1977. (do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA, Juareiz Correya - Nordestal Editora, Recife, 1982) ________________________________________ Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, Juareiz Correya - Panamérica Nordestal, Recife, PE, 2010

ANTILÍRICO

para Paulo Azevedo Chaves que bicho devora tua cota diária ? sem plumas, escamas, couro ou cabelos que bicho é esse que tem uma boca medonha em cada esquina ? é dia e é noite quando ele ataca sem rastrear vestígios, galopando nas terras selvagens dos corações de só abandono. não lhe dê luz, não lhe dê sombra, não lhe dê um assovio companheiro ou uma hora cúmplice, não lhe dê pão ou bosta, ele vem com eterna fome, com eterna raiva, ele não balança a cauda, nem uiva nos telhados, nem espanta os animais domésticos. com urros e patas de silêncio ele golpeia sem sangue e dança nas bordas do sol sua alegria funesta, guizos de só solidão. (do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA, Juareiz Correya - Nordestal Editora, Recife, PE, 1982) ___________________________ Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, Juareiz Correya - Panamérica Nordestal, Recife, PE, 2010)

HERMILO ENCANTADO

para Leda, a companheira. na hora H, te encantaste, Hermilo. a tua hora sem linhas, Estados, convenções, estratégias, dor no mapa da vitória, sorte dos aliados : a tua hora sem homens, como em nenhum tempo. na hora-Hermilo teu nome expira e o mundo se apequena mais do que Palmares - universo maldito como a tua boca vomitando tanta vida. não é mais um, ou menos um, que se vai ou passa, porque não há mais conta para esta desgraça: é você quem some, Hermilo é você quem conta nesta hora sacana sem respeito à ereção do teu nome, contágio do Homem. na hora-Hermilo, sagrada por ti, desaparecer por encanto desnorteia a gente até uma oração que te deixaria puto : - a vida é uma merda. que será de Goguéia, Mucurana, Zumba-sem-dentes, Bole-sem-Tempo, Veado-Podre e Fanhim ? que será dos fodidos, das putas, do eterno Pirangi, que será de tudo, de todos, que será de mim ? na hora-H ninguém te elegia, Hermilo - teu sangue vivo bulindo bombeia o coração da esperança, tu ...

OS HOMENS, PEQUENOS POETAS

Não leio os que se dizem grandes poetas. Eles arvoram-se e edificam-se em suas moradas de sombras e vocabulares constelações. Criam distâncias intangíveis e com apodrecido sangue zumbi amortecem e anulam a emoção enfiam no rabo os instintos castram todos os sentidos e envilecem os sentimentos. Sim : mentem e bordam fedem e pintam. Do mundo onde estão (que felizmente não é o nosso, habitado apenas por um ou outro poeta sem tamanho) fingem que a humanidade existe e cagam para ela somente obras-primas. Deuses feios e famintos, eles masturbam-se em sua própria glória e negam a vida tantas vezes quanto for preciso para que ninguém entre no Reino-dos-Seus. Nunca viram o Inferno onde nós vivemos, nem lavaram a mão com a nossa lama. E nunca morreram, como tantas vezes renascemos. Um dia eles neutronizarão a terra inteira. E, com a sua palavra cretina e luminosa, num parto asséptico e sem dor, inventarão os homens. (do livro AMERICANTO AMAR...