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Sem Título ("a mulher agora é terrível")

a mulher agora é terrível é terrível e esta palavra é pouca, eu não sei como abarcar a grandeza da miséria a que ela nos condena. e antes, e cedo mesmo quando esteve comigo companheira e amiga sua dor e sua solidão me cativaram pelos dias em que historiamos a nossa sorte vagos e plenos, em nós o universo. eu quis lhe dar e lhe dei os meus alvoroços e a minha calma e o gosto que eu sempre tive de me dizer seu. ela me acolheu e me disse generosa que me recebia e me queria com a certeza de quem ia me receber e me querer muito mais. agora, o tempo não é de alegria nem festa alguma existe em nossa volta ou nos encontros que forçam os nossos passos. existe em mim uma dor e uma solidão que eu nunca tive e a desgraça de vê-la terrível como eu nunca vi. (do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA, de Juareiz Correya - Nordestal Editora, Recife, 1982) ___________________________________________ Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA E OUTROS POEMA...

(SEM TÍTULO, 2) "dói em mim uma dor danada..."

______________________ dói em mim uma dor danada que eu não quero ter e que não recuso. um gesto que eu não conheço me condena, a voz transborda iras e terrores. a mulher que eu amei é logo desamada num abandono cego e pessimista. amanhã eu não sei o que dizer do amor para que não seja apenas uma palavra. meus sentimentos se perdem e se confundem e eu me esqueço de mim, falho nos sonhos erro nas esperanças passo batido e retardatário no ciclo dos dias, me sinto sem forças para conduzir meu próprio fardo. que olhos brilharei para a mulher que amo quando ela aparecer cansada e triste ? dói em mim uma dor danada que eu não quero ter por que repartir com essa companheira sofrida em meus caminhos inútil e vaga em sua sorte que eu não quero ter e que não recuso. (do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA, de Juareiz Correya - Nordestal Editora, Recife, PE, 1982) ________________________________________ Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA E OUTROS PO...

(SEM TÍTULO)

___________________________ estou triste porque não disse do amor alegres palavras que alvoroçassem teu sangue e te perdessem em nosso encontro. estou triste e inútil, cansado pelas ruas e becos e praças e grotas e grutas deste lugar que enfeitei contigo para te inaugurar e te fazer morada. é uma tristeza sem álcool nos olhos e sem olheiras, sem amargor e sem derrota tristeza triste contra a alegria de te ver. serena em mim um rebanho de temores pastando nesta noite de distâncias. ninguém nos vê,nem sabe do nosso desamparo e do carinho que não tratamos quando estivemos juntos. ninguém vê que não nos vemos e que não sabemos de nada do que dissemos e que não fazemos o que queremos. esta tristeza cresce e me espanta se estendendo sobre pontes e rios como se pudesse te encontrar e, onde estás, enterrar teu rosto em sombras e teu coração em apertos (do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA, de Juareiz Correya, Nordestal Editora, Recife, 1982) ____________...

SEM AMANHECER

amanhece. mas eu sinto que não amanheço. sombras amadurecem em meu rosto e um cansaço eterno mora neste corpo que eu pensei guardar revivido para hoje. amanhece agora - a cidade está pronta para o dia que nasce limpa e clara se instala a manhã no coração dos homens que despertam, sem sombras no rosto e sem cansaço, renascidos também. amanhece. só eu não vejo a luz e os caminhos. (do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA, de Juareiz Correya - Nordestal Editora, Recife, 1982) _______________________________________ Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, de Juareiz Correya - Panamérica Nordestal Editora, Recife, 2010

FLOR QUE NÃO SE CHEIRA

sou flor que não se cheira, tenho é veneno eu mato e tiro o couro, depois condeno. sou bicho doutro mundo, vivo em tocaia espero todo dia que a casa caia. mas tem hora que sinto e me conheço direto e certo, compasso e prumo sem saber porque me orientando feito universo de todo rumo e saio de mim e me entrego tanto vendaval no coração da cidade cada vez mais nu e louco e santo só minha paixão por tudo arde e sinto e sou e saio e salto cada vez mais alto e largo e fundo navego meu rio, capricho meu barro voando meu fogo purifico o mundo (do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA, de Juareiz Correya - Nordestal Editora, Recife, PE, 1982) ______________________________________________ Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, de Juareiz Correya - Panamérica Nordestal Editrora,Recife, PE, 2010.

MARIA JOANA

joana, eu te quero para dormir menina de olhos cálidos quero bodear te querendo te comendo, maria joana das transações, derrubações dos mil e um baratos, mulher lampejo fumando meus dedos me amassa tou mais ou menos legal partilharei com os meus irmãos toda & qualquer alegria e a paz que nos embala eu sei que te proibem para os meus lábios que te proibem fluir no meu peito encher minha cabeça te é proibido maria (cálida) joana (doce) tu me adormeces todos os músculos me abres no meio de mim com um sopro & que importa ao mundo se me embebedo ? se fico pirado ? se me ouriço do tamanho de uma sensação ? se bodeio com clássicos olhos vermelhos & o corpo meu curtido no teu cheiro & no teu gosto me expõe de dentro de mim & sai comigo ao meu encontro ? (do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA, de Juareiz Correya - Nordestal Editora, Recife, 1982) ___________________________________________ Transcrito do livro AMERICAN...

DIA DE SOL

os nervos compridos que estalam-me do corpo atiro pela porta na rua. os nervos rasgados eu grito com um rombo enorme na garganta minha cabeça cresce & quebra os móveis da sala quebra as portas & os objetos na calçada eu apavoro as pessoas com um grito rouco, arremesso as pernas sobre construções e fantasmas de concreto, sou uma miragem, vocês me comovem putas elegantes troco um olho pelo sol agora as veias se abrem & o meu sangue corre solto pela calçada eu me inundo & vomito todos os orgãos para comê-los com um bocado de terra com o meu tórax aberto embaixo de máquinas negras móveis vocês fazem uma festa (do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA, de Juareiz Correya - Nordestal Editora, Recife, 1982) ______________________________________________ Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20 - de Juareiz Correya - Panamérica Nordestal Editora, Recife, 2010.