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CANÇÃO DE MIM EM TUA BOCA

desfolho a glande ao vento para o teu sustento prepucio nervos pulsantes, teu hálito sopra em meu sexo aragens cardíacas, batem neste músculo mágica oferta teus olhos acendem a escuridão do quarto com os mesmos faróis apagadores de sóis marítimos chão liso piso palha colchas mata praia água-rio aguamar reviramos as horas revezamos faunas floras e a história de se dar. tua boca se debruça em mim feita céu movente cobre meu corpo sem palavras estelares consteladas para animar meus movimentos terrenos : apenas cios cios tua voz teleguia carícias me banha sons roucos poucos esparsados, é intensa a tua fome. alimento, o vigor que me nasce vem de ti e eu dedico emoções ao teu sorriso tenso de dentes e línguas expostos luminoso de sede eu te ergo em obelisco minha carne germinada se elaborando do âmago de fundos poços. tua boca presa em mim lambe espadas do púbis derrama as serpentes da tua língua hábil no monumento que te ebria e eleva as tuas forças pa...

OUTRO POEMA DE CIRCUNSTÂNCIA

meus pulmões transbordam-me pela boca de granito automóveis & metálicos minotauros vagos como balões de espuma na Praça da República gritos & estupros entram pelos meus ouvidos & a orquestra é uma tarde fixa quente, quente, mais quente e atordoante que o teu orgasmo. parar, parar assim como um idiota parado entre tantos animais feridos que correm para me pisar com os seus cascos de nailon, parar estupidamente & expor-me as vísceras para que os pássaros condenados cantem berros de vitórias nos seus carnavais criminosos ? parar assim como uma pedra uma bala uma vítima ? parar assim como quem perde as pernas durante o vôo & estender a cara sobre a cidade & estender langores & delírios para as tuas correrias, para os teus sentimentos automáticos & cronometrados, para as tuas sensações censuradas & computadas, & ser um pouco matéria lubrificante óleo para os corações dos robôs nas peças dos homens ? eu quero beijar o sexo...

ATO

no meio da cama me ergo & Sônia se ergue me acompanha com as mãos os dedos crispados as pernas tesas Sônia se deita se espicha se solta nos lençóis mal lavados da cama do hotel fico imóvel sentado sobre as minhas pernas & o pé esquerdo de Sônia procura-me o pênis semiduro eu rio & Sonia enfia o pé esquerdo na minha barriga deitando-se deitada Sônia cresce cresce tem um púbis gigante & as coxas volumosas como dois pilares eu me jogo para as pernas de Sônia duas montanhas lisas & alcanço o rosto de Sônia que se abre Sônia cabe dentro de mim cabe em todas as minhas partes & agora eu cresço a pele inchada músculos veias os membros inchados (do livreto O AMOR É UMA CANÇÃO PROIBIDA, Juareiz Correya - Edições Pirata, Recife, 1979) ________________________________________ Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, Juareiz Correya - Panamérica Nordestal Editora, Recife, 2010)

CANTIGA DE QUERER

quero gozar na tua boca o beijo mais doce iluminado na noite do teu corpo ganhar a alegria a festa inteira fantasia de mais querer de mais gozar amor viver quero gozar na tua boca de amar amor gozar além da noite nascer o dia no teu corpo garanhar minha alegria ser a festa da tua fantasia tua febre e a sede de se dar amor inteiro, amor de se gozar (do livreto O AMOR É UMA CANÇÃO PROIBIDA, de Juareiz Correya - Edições Pirata, Recife, PE, 1979) _________________________________________ Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, de Juareiz Correya - Panamérica Nordestal Editora, Recife, 2010

MELHOR É AMAR

melhor que morrer é viver cair no bar virar a esquina andar a pé de mão em mão de lotação correr de trem não sei aonde ir de avião chupar o caldo beber a cana ser sem vergonha e ser bacana se depender da ocasião ser um menino que não se engana que sonha muito e cai na cama vira Papa-Figo de Bicho-Papão melhor que morrer é viver ter seu mistério ter sua linha crescer na conta não na conduta sofrer na rinha da sua luta sorrir na hora dizer o nome que quem é homem não se consola entrar de sola ficar de frente olho por olho dente por dente chegar mais cedo ir logo embora melhor que morrer é viver ser singular não diferente não ser pessoa ser mesmo é gente correr jamais não é preciso não tem parada tem é caminho não há demência há só juízo pra ver o bem se vê o mal não vale ao mundo saber profundo vale no fundo o essencial MELHOR QUE MORRER É VIVER MELHOR PRA VIVER É AMAR QUEM VIVE PODE MORRER QUEM AMA NÃO MORRERÁ ...

PASSAGEM NA PONTE

estou aqui, no meio da ponte no raio do dia (ou no açoite da noite) no vão desta vida, no passo das águas amanhecendo de tarde sem hora de amanhecer desperto com a mesma sede afogada na garganta despejando as enchentes da fala nos rios. estou aqui, em cima da ponte não sou boi nem voarei além do Equador, não vou correr da polícia, não tenho argumentos nem malícia, não vou pular frevo ou maracatu, não sou punguista nem sou camelô. dentro da ponte é onde estou e não me interessa se você para ou passa se você pensa qualquer coisa ou se acha graça e desconversa direto antes de chegar na esquina. não me interessa se você é macho ou fêmea. não me interessa a roupa que você veste, se você não tem dinheiro no bolso ou no banco ou se investe porrilhões e tantos na Bolsa de Valores. interessa é que eu estou aqui na ponte, sem pregão, sem comício, sem liquidação, sem manifesto, sem saber direito como lhes falar de encontros e entregas e dores e vocês têm uma pres...

DO DESAMOR BERRANTE

deitado em teu corpo sou eu quem estremeço de tremores crispados à flor dos meus dentes sem um soluço gemido misturado à chama da fala que se apaga sem espancar teu rosto. sou eu quem mergulho em mim e me abarco com as mãos vazias desorientado e só neste deserto de quatro paredes em que tua voz distante não te anuncia em qualquer rotação. a cama não é teu ninho, a cama é teu holocausto e te estiras inerme quando eu brilho meu sexo ao teu alcance e silencias quando me afundo em teus braços como quem me vê conduzindo as trevas da noite irretornável. a tortura não te escalda a carne e sou eu quem sinto na pele nos ossos os rombos de sua frenética paixão e o clangor de suas cadeias fere e dói fundo e amor-talha minha ternura desprezada nos lençóis com o avesso desta oferta máscula que te faço ___________________________ do folheto RECITY RECIFE - UM (Casa da Cultura / Governo de Pernambuco, Recife, PE, 1976).