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MELHOR É AMAR

melhor que morrer é viver cair no bar virar a esquina andar a pé de mão em mão de lotação correr de trem não sei aonde ir de avião chupar o caldo beber a cana ser sem vergonha e ser bacana se depender da ocasião ser um menino que não se engana que sonha muito e cai na cama vira Papa-Figo de Bicho-Papão melhor que morrer é viver ter seu mistério ter sua linha crescer na conta não na conduta sofrer na rinha da sua luta sorrir na hora dizer o nome que quem é homem não se consola entrar de sola ficar de frente olho por olho dente por dente chegar mais cedo ir logo embora melhor que morrer é viver ser singular não diferente não ser pessoa ser mesmo é gente correr jamais não é preciso não tem parada tem é caminho não há demência há só juízo pra ver o bem se vê o mal não vale ao mundo saber profundo vale no fundo o essencial MELHOR QUE MORRER É VIVER MELHOR PRA VIVER É AMAR QUEM VIVE PODE MORRER QUEM AMA NÃO MORRERÁ ...

PASSAGEM NA PONTE

estou aqui, no meio da ponte no raio do dia (ou no açoite da noite) no vão desta vida, no passo das águas amanhecendo de tarde sem hora de amanhecer desperto com a mesma sede afogada na garganta despejando as enchentes da fala nos rios. estou aqui, em cima da ponte não sou boi nem voarei além do Equador, não vou correr da polícia, não tenho argumentos nem malícia, não vou pular frevo ou maracatu, não sou punguista nem sou camelô. dentro da ponte é onde estou e não me interessa se você para ou passa se você pensa qualquer coisa ou se acha graça e desconversa direto antes de chegar na esquina. não me interessa se você é macho ou fêmea. não me interessa a roupa que você veste, se você não tem dinheiro no bolso ou no banco ou se investe porrilhões e tantos na Bolsa de Valores. interessa é que eu estou aqui na ponte, sem pregão, sem comício, sem liquidação, sem manifesto, sem saber direito como lhes falar de encontros e entregas e dores e vocês têm uma pres...

DO DESAMOR BERRANTE

deitado em teu corpo sou eu quem estremeço de tremores crispados à flor dos meus dentes sem um soluço gemido misturado à chama da fala que se apaga sem espancar teu rosto. sou eu quem mergulho em mim e me abarco com as mãos vazias desorientado e só neste deserto de quatro paredes em que tua voz distante não te anuncia em qualquer rotação. a cama não é teu ninho, a cama é teu holocausto e te estiras inerme quando eu brilho meu sexo ao teu alcance e silencias quando me afundo em teus braços como quem me vê conduzindo as trevas da noite irretornável. a tortura não te escalda a carne e sou eu quem sinto na pele nos ossos os rombos de sua frenética paixão e o clangor de suas cadeias fere e dói fundo e amor-talha minha ternura desprezada nos lençóis com o avesso desta oferta máscula que te faço ___________________________ do folheto RECITY RECIFE - UM (Casa da Cultura / Governo de Pernambuco, Recife, PE, 1976).

PONTE SOBRE ÁGUAS TURVAS

se teu sorriso não movesse o rio contra as correntes do leito onde escorre eu poderia sim eu poderia cair nesta noite sem esperança de te encontrar minha canção é tão pouca minha canção chove e me faz um homem débil tua lembrança joga no meu rosto teus braços cheios de plantas e odores teus peitos macios de tremores e de nuvens encharcadas cigarros sapatos cuspo pedaços de árvores e de pássaros e tuas palavras algumas, que eu misturo com seixos assovios e a melodia que você gostava de ouvir na minha boca agora também o céu é feio e não tem graça tua lembrança me entristece e me enterra nestes espelhos (do folheto RECITY RECIFE - UM, Casa da Cultura /Governo de Pernambuco, Recife, 1976) ________________________________________ Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20 - Juareiz Correya (Panamérica Nordestal, Recife, 2010)

"Eu fui visto voando em círculos..."

eu fui visto voando em círculos retos no jardim da infância com anjos cor de rosa ridentes & velozes & as pessoas nos acompanhavam angustiadas pelos céus da cidade todas as crianças me seguiam & atropelavam aviões & mísseis & era uma festa & uma gritaria melodiosa pelos céus da cidade tantos castelos & tantos países de guloseimas casas & montanhas enormes doces comestíveis construídos assim PLUFT (do folheto RECITY RECIFE - UM, Casa da Cultura / Governo de Pernambuco, Recife, 1976) _____________________________________ Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20, Juareiz Correya (Panamérica Nordestal, Recife, 2010)

QUATRO ESTUDOS NU POEMA (4)

ando nos mesmos corredores dos homens comuns & me cerco dos hábitos cotidianos, colocado nos supermercados, cinemas, bares, nos becos me oriento para ser capaz como os outros,com os mesmos vícios que alegram as famílias & o Governo tomando ônibus, táxis, bebendo neurose na capital & consumindo tédio nas cidades do interior me esforço para conduzir assim este corpo magro de vidro pelas ruas onde todos os olhares me rebuscam eu escrevo como quem pratica crimes perfeitos sem paz & alegria para esta descoberta inesperada (do folheto UM DOIDO E A MALDIÇÃO DA LUCIDEZ, Juareiz Correya, Palmares,PE, 1975) _____________________________________________ Transcrito do livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA E OUTROS POEMAS DO SÉCULO 20 - Juareiz Correya (Panamérica Nordestal Editora, Recife, 2010)

QUATRO ESTUDOS NU POEMA (3)

assim o espanto me conduz eu sei onde estou & não sei aonde vou no cérebro guardado posso consultar a memória mas o que me interessa assalta minhas energias sem tempo marcado, aqui eu me erijo & conduzo o movimento que não havia surgido, a palavra que não tinha nascido a emoção que jamais despertara, a música que nunca havia musicado estes símbolos. aqui eu fecundo uma nova espécie, a raça que não nasceu hoje & nascerá sempre : eu inauguro, sem festas, o poema