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AMERICANTO AMAR AMÉRICA (3)

América tua alegria me embebeda eu sou teu deus poeta incandescido no teu ventre teus olhos brilham poemas terríveis gaivotas criminosas de Ginsberg & me enfeitam & me enfeitam arcoiris de luas gigantescas empoeiradas nos ruídos das motocicletas & há tanta doçura na gasolina matando a sede na minha garganta & alucinógenos & lírios & violetas & roseiras & porres de cocaína & rolos de maconha

AMERICANTO AMAR AMÉRICA (2)

América eu me dou com este corpo de criança que a tua febre come e joga para os céus dos chacais meu corpo virgem nas estradas que a tua volúpia rodopia além onde estão todas as promessas para que o meu gozo encha os mares & enterre todas as florestas com tempestades de espermatozóides

AMERICANTO AMAR AMÉRICA

este poema é dedicado à geração beat norte-americana que pariu o Anti-Sonho nos anos 60. América mulher de carnes cruas pregadas no meu peito como colunas de ventos colossais meus gritos são alegria de tambores & montanhas de plástico são doces campos de açúcar & rios de sangue cheios de troncos negros queimados na dança dos teus cabelos que a noite estupra gargalhadando

FINADIA

"Cavalgou mil camelos nas dunas do coração inquieto. Descansa, Lawrence of Arábia." (EPITÁFIO, de Érico Max Muller) Há urubus desgarrados contra o céu pela manhã. Este não é um dia como outro qualquer ? Sim, a tarde não foi feita para estes rostos falsos cinzentos mascarados eu sobrenado no cemitério ridículo onde besouros acendem velas e iluminam os semblantes dos mortos florindo nas sepulturas. Histórias saem do chão e arrotam contra o meu peito odor e elos com as suas bocarras estendidas. ________________________________ (antologia POETAS DE PALMARES, Palmares, 1973)

VELHA SECA

Se vocês conhecessem a mulher que eu falo não saberiam o que dizer. É difícil imaginar uma mulher desprezível ? Quando ela se aproxima da gente não há quem não reaja de algum modo, e são fáceis as caras de nojo e as brincadeiras, eu penso que ela vive de esmolas que lhe dão, ou se embebeda à toa, a velha ri com os dentes estragados sem equilibrar-se nas pernas finas, as pernas finas dela em meias ralas de lã e um casaco pobre que ela aperta para abrigar o peito murcho, a velha ri e diz coisas ininteligíveis como uma caveira alegre. Ontem eu estava louca pra fazer, ela disse assim sem espantar as caras habituais do bar. E contou se afogando no copo de vinho que procurou um homem a noite inteira e não encontrou nada, que passou a noite inteira com vontade de sentir um homem entrando nela e ela entrando no homem, ela disse que ficava sem saber o que fazer quando tinha vontade, ficava como louca procurando homens o dia inteiro. ___________________________ (antologia POETAS DE PALMARES, Pa...

HISTÓRIA DE PROVÍNCIA

a velha apareceu na loja toda tremendo com as mãos na cabeça sem saber o que dizer mas disse que o mundo tava se acabando e o estudante correndo com o coração na boca atropelou muita gente porque pensava que o exército metia porradas no povo pra prender subversivos só o poeta viu os cavalos copulando na feira do domingo ensolarado viu os cavalos copulando sobre toldas e caixotes de legumes e vendedores apavorados só o poeta identificou o que causava tanta confusão na rua naquele dia num poema rindo _____________________________ ( antologia POETAS DE PALMARES, Palmares, 1973)

CANÇÃO

Dia para fecundar ilusões em que o meu corpo se acalme sem o teu corpo que não me chegou por nenhuma via, e o meu cérebro apodreça com sedativos vaporosos. Dia amargo. Não sei o que fazer corretamente não sei, enfrento caras obesas de hábitos dentro da rua sem calma, inquietação, sem sentimentos, tenho ódio de tudo com a força morta dos meus dedoscabelos amarrados nas janelas dos apartamentos e uma sensação idiota de que abro vazios dentro de mim com um bisturi enferrujado e sangro pelas cicatrizes fétidas cobrindo-as com pastas de tuberculose e dentes de máquinas mastigo pelos braços vagamente bolos de nada. Poemas gargaloam secamente até a minha boca e os meus gritos gelam as estrelas que ardem dentro das salas onde são seviciados e torturados os homens do meu tempo, onde a minha geração sacrifica-se pelo bezerro de ouro das igrejas depravadas e os anjos bíblicos forjam cadeias para as suas alegrias. ____________________________________ ( antologia POETAS DE PALMARES, Editora Palma...